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Moradores de cidade da Paraíba têm internet na praça, mas tomam banho de balde

Fernando Gallo - enviado especial de O Estado de S.Paulo

19 Maio 2014 | 07h 48

São José de Piranhas oferece Wi-Fi grátis, mas comunidades rurais sofrem com a seca e não verão a água do São Francisco

SÃO JOSÉ DE PIRANHAS (Paraíba) - Incrustada no sertão paraibano, a mais de 400 km de distância da capital João Pessoa, a São José de Piranhas (PB), brindada na terça-feira passada com a visita da presidente Dilma Rousseff, que lá foi inaugurar um túnel da inacabada obra da Transposição do rio São Francisco, é um retrato de um Brasil que avança, e de outro que não sai do lugar.

Beneficiada com dezenas de programas e ações do governo federal nas gestões de Dilma e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a cidade se desenvolveu, e hoje se dá ao luxo de ter Wi-Fi grátis na praça, franqueado pela Prefeitura. A 10km dali, porém, comunidades rurais de Piranhas enfrentam um crônico problema hídrico, e já sabem que nem a água da transposição, ora prometida para irromper nas torneiras paraibanas em 2016, chegará até elas.

Em uma década, Piranhas recebeu máquinas como retroescavadeira, caminhão caçamba e caminhão-pipa, oito ônibus escolares, um Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), 1,8 mil kits escolares, uma creche (obra pronta, aguarda equipamentos), um Centro de Atenção Psicossocial (Caps), dois profissionais do programa Mais Médicos (um deles cubano), 132 banheiros para as comunidades e 15 escolas com laboratório de informática, bem como ampliou o Programa de Saúde da Família, investiu na capacitação de professores e acessou programas como o Projovem.

"Vocês que estão no Sudeste podem ver isso como o básico do básico, mas para a cidade é um enorme avanço", diz o prefeito Domingos Neto (PMDB).

Contudo, dos 19 mil habitantes, 2,9 mil famílias ainda dependem do Bolsa Família, e mais de 2 mil pessoas vivem uma situação de grande insegurança hídrica, sina de um Nordeste que teima em existir.

No Caldeirão, zona rural, há muito o banho é de balde, não há trabalho para os homens que plantavam milho e arroz porque os pés secaram todos, a pouca água que aparece é transportada em latas e as mulheres percorrem quilômetros com as roupas da família em mãos para lavá-las em outras comunidades porque a água é escassa.

Os dois cacimbões, poços construídos pela comunidade para o armazenamento da água - um com dez metros de profundidade, e outro com sete - secaram por completo. As casas que têm cisternas - muitas não tem -, as veem quase vazias.

"Só por dedo de Deus, moço. Água aqui não existe". Custou seis dias desde que dona Geralda de Araújo começou a ligar para a cidade para que finalmente enviassem para a comunidade no domingo, dois dias antes da visita da reportagem, um caminhão-pipa, única forma de acesso a água desde que há mais de ano secou o açude que abastecia as cerca de 600 pessoas que moram ali.

Uma vez por semana, dona Fátima Corné faz uma trouxa com a roupa das 12 pessoas que moram em sua casa no Caldeirão e vence, à pé, alguns quilômetros até chegar a uma propriedade privada na qual o dono permite, por R$ 20 mensais, que lave as vestes da família.

A comunidade se ressente por dona Francisca Pereira, de 90 anos, que também sofre com a penúria. Quando a reportagem deixava a comunidade, a senhora pediu para falar. "Tudo bem, dona Francisca?". "Não está nada bem, meu filho. Nós precisamos de água", disse ela, com os olhos marejados.

Por longe do local onde ficará o reservatório de Piranhas que receberá a água da transposição, o prefeito e a comunidade de Caldeirão dão como certo que a água do São Francisco não chegará às torneiras de Piranhas, como se a distância tornasse uma segunda transposição intransponível. Os problemas da estiagem se repetem em outras comunidades: Carrapateiras, Bom Jesus, Mangação...

Domingos Neto, o prefeito, afirma que em Caldeirão o problema é sazonal, por conta da falta de chuvas no último ano. Ele afirma que têm perfurado poços artesianos em comunidades como forma de contornar o problema. Caldeirão ainda não foi contemplada. Seu Francisco Pereira, que mora ali desde a década de 1940, porém, diz que a seca vem piorando a cada ano.

"Precisam ter pena de gente tão pobre", diz Geralda. A comunidade apela pela perfuração de um poço, e pela criação de um novo açude, em uma área melhor. "Querendo, os governantes resolvem", afirma Fátima.

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