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Criam-se mitos e deturpa-se a verdade, mas a Operação Lava Jato está firme e forte

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Eliane Cantanhêde

12 Março 2017 | 05h00

É inacreditável a capacidade da política brasileira (ou seria da política em qualquer lugar do mundo?) de criar mitos, endeusar ou demonizar líderes, falsear a realidade e manipular dados, tudo isso potencializado pelo marketing e agora pelas redes sociais.

“Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”, descobriu, usou e abusou Joseph Goebbels, orgulhoso por ajudar a transformar Hitler em Hitler. Na adaptação feita no Brasil, também com enorme sucesso, ficou assim: “Se os fatos não correspondem à versão, danem-se os fatos”.

E assim se multiplicam “verdades absolutas” que não passam, ou não deveriam passar, por simples mecanismos de checagem, por uma avaliação banal ou pelo velho bom senso. Elas surgem de um papo, uma reunião, um interesse, e ganham asas sem contestação. Quem não conhece alguém capaz de defender apaixonadamente teses absurdas e ídolos de pés de barros?

Uma primeira verdade absoluta, bem atual, que embala até manifesto de artistas e intelectuais, é que basta Lula virar candidato para ser eleito presidente da República nas eleições de 2018. Será tão simples? Lula lidera as pesquisas hoje, e daí? Daí, nada. Não se sabe quem será candidato nem quem vai sobreviver à Lava Jato. Aliás, Lula terá de enfrentar uma campanha como réu em cinco processos, culpado pelo desastre Dilma e embalado por um PT cambaleante.

Outro mito: o ex-deputado Eduardo Cunha continua mandando em tudo e todos e tem o governo Temer na mão. Cunha, o mais forte presidente da Câmara em décadas, esperneou e resistiu o quanto pôde, mas desabou da presidência, do mandato e da própria liberdade. Está tão isolado (ou abandonado) em Curitiba que o fato de receber a visita de um único deputado, Carlos Marun, causa frisson. Além de chantagem, que armas e tropas Cunha tem para mandar no governo, se não salvou nem a própria pele?

Foi mais ou menos o que aconteceu durante anos com o sempre mito José Dirceu, que carrega uma biografia de cinema, presidiu a ascensão e a queda do PT, criou a fama de mandar no governo Lula e manteve a aura de continuar conduzindo não só o partido, mas toda a esquerda nacional, mesmo depois de apontado como “chefe de quadrilha” e condenado no mensalão. 

De volta às grades pelo petrolão, foi sentenciado a 20 anos e dez meses em 2016 e a mais 11 anos e três meses na semana passada. O mito do seu imenso poder ruiu definitivamente com um lamento dramático do seu advogado, Roberto Podval: “Estão matando o Zé Dirceu”.

O mito da vez, a “verdade absoluta”, a versão que se sobrepõe aos fatos, a mentira repetida mil vezes é que a Lava Jato vai virar pizza. O juiz Sérgio Moro segue implacável e há vários Moros no País, assim como procuradores e policiais federais. O procurador Janot deve enviar hoje ao STF o pacote da Odebrecht. As investigações vão de vento em popa.

Vocês notaram que sai e entra ministro da Justiça (cinco em um ano!) e, a cada vez, explode a suspeita de que o novo ungido vá trocar a cúpula de Polícia Federal. Nenhum trocou. E notaram que os políticos tentam resistir desesperadamente, alegando que doações de campanha eram legais e todos recebiam, mas não são todos iguais? Eles têm razão e ninguém dá ouvidos. Assim chegamos ao mito maior: que é só chegar ao Supremo para a Lava Jato secar. Não secou, não seca, não secará e uma prova evidente foi a decisão da semana passada transformando o senador Valdir Raupp (PMDB) em réu apesar de ter declarado oficialmente doações de R$ 500 mil à sua campanha. Para bom entendedor basta: os ministros não vão aliviar. 

Está muito devagar? Bem, isso não é mito, é verdade: a Justiça no Brasil é lenta. A diferença que era lenta e falhava, mas, se continua lenta do Supremo, tudo indica que não vai falhar.

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