Mercosul, imaturo aos 20 anos

O Mercosul precisa de mais dez anos para ser um bloco sério e não um arremedo de união aduaneira, decidiram ministros e presidentes em mais um feliz convescote, desta vez em Foz do Iguaçu. A linguagem oficial foi autocomplacente, como sempre, e usou expressões como "aprofundamento da integração", mas o sentido é aquele mesmo. Em março o bloco vai festejar o vigésimo aniversário, mas continuará longe da maturidade, com bitributação aduaneira, Tarifa Externa Comum cheia de furos, barreiras comerciais internas, um regime automotivo aberrante e muita dificuldade para fixar objetivos comuns. Para manter a tradição, a presidente argentina, Cristina Kirchner, chegou à reunião ameaçando impor nova barreira contra produtos brasileiros - desta vez, toalhas. Será apenas mais um item numa longa lista, enriquecida, há pouco tempo, com a imposição de cotas para lençóis.

AE, AE

17 Dezembro 2010 | 23h12

 

Mas os presidentes celebraram, no comunicado final, os feitos de 2010, apontado como um ano de "avanços importantes para a consolidação do bloco" e para a reafirmação da "força" e do "sentido estratégico do Mercosul como projeto de integração profunda e solidária". O palavrório foi o de sempre.

Incapaz de resolver os problemas internos de integração comercial e produtiva, o Mercosul tem falhado, também, na realização de acordos comerciais com os principais mercados. A façanha mais importante nessa área foi a conclusão de um acordo com sete economias classificadas como emergentes - Coreia do Sul, Índia, Egito, Indonésia, Malásia, Marrocos e Cuba. Esse pacto, muito menos amplo que um tratado de livre comércio, foi formalizado em Foz do Iguaçu. Outros países latino-americanos, como Chile, Colômbia e México,preferiram ficar de fora e avaliar depois se valerá a pena aderir.

 

A preferência ideológica pelas parcerias com países em desenvolvimento marcou outras decisões formalizadas em Foz do Iguaçu. Houve acordos de cooperação com Cuba, Síria e Autoridade Nacional Palestina. A negociação com a União Europeia, iniciada há mais de dez anos, continua em marcha lenta, depois de longa paralisação.

 

Nesse mundo de autocomplacência, fantasia e compromisso com bandeiras abandonadas há muito tempo nos países mais dinâmicos, a fala do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no encerramento da Cúpula Social - um evento paralelo - deve ter parecido bem razoável. No tom geral, foi mais um "até logo" de um presidente com perfil messiânico e inconformado com o fim do mandato. A peroração, como de costume, conteve muito autoelogio, um pouco de meias-verdades e uma ampla coleção de inverdades, apresentadas sem sinal de constrangimento.

 

A aproximação dos países latino-americanos, disse o presidente, foi a base do bom desempenho da região durante a crise iniciada em 2008. Isso não passa de meia-verdade. O comércio intrarregional contribuiu para a recuperação, mas isso é só um pedaço da história. Muitas economias latino-americanas estavam muito mais firmes do que nas décadas anteriores, graças à adoção de políticas fiscais e monetárias tradicionalmente combatidas pelo petista Luiz Inácio Lula da Silva e pela esquerda regional.

 

Também segundo ele, há dez anos os presidentes sul-americanos disputavam para ver quem era mais amigo dos presidentes dos Estados Unidos e quem seria convidado para passar o fim de semana em Camp Davi. É uma afirmação inteiramente falsa em relação aos presidentes do Brasil e da maior parte dos países vizinhos, mas Lula não se impõe limites quando se entrega à fantasia. "O Mercosul tinha sido jogado na lata do lixo" e a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) era apresentada como a salvação da América do Sul, acrescentou. De novo, inverdades da primeira à última palavra. Todos os avanços de fato do Mercosul ocorreram só até aquele momento. O bloco entrou no atoleiro quando o presidente do Brasil decidiu sujeitar a política externa a suas fantasias e ambições de liderança.

 

Essa mesma decisão precipitou o fracasso da Alca - o que, afinal de contas, permitiu aos chineses ocupar espaços nos maiores mercados das Américas. O maior perdedor, obviamente, foi o Brasil.

Mais conteúdo sobre:
economia, política, Lula

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.