Evaristo Sá/AFP
Evaristo Sá/AFP

Bolsa despenca na abertura e trava negociações pela 1ª vez desde 2008

Queda acentuada de mais de 10% ativou o circuit breaker, mecanismo utilizado pela Bovespa que permite, na ocorrência de movimentos bruscos de mercado, interrupção do pregão por meia hora

O Estado de S.Paulo

18 Maio 2017 | 00h44

SÃO PAULO - Os ativos brasileiros reagiram com nervosismo desde a abertura do pregão à informação de que o executivo Joesley Batista, do Grupo JBS, gravou conversa com o presidente Michel Temer em que ele teria dado aval para a compra do silêncio do deputado cassado Eduardo Cunha. 

Tanto o dólar quanto as taxas de juros negociados no mercado futuro abriram o dia batendo no limite de alta do segmento e, portanto travando as negociações, assim como o Ibovespa, que teve disparado o circuit breaker logo após os primeiros negócios, ao tombar mais de 10%.

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O dólar à vista abriu a sessão aos R$ 3,3235 (+5,62%) e, posteriormente, atingiu nova máxima, aos R$ 3,4175 (+8,61%), paralisando novamente as negociações. Apenas depois da segunda intervenção do Banco Central, os preços desaceleraram um pouco, de acordo com agentes de câmbio. Às 14h24, o dólar à vista estava cotado a R$ 3,35, com alta de 6,99%.

O mercado de ações comportou-se hoje como o previsto. Depois de um leilão de abertura mais demorado que o normal, o Ibovespa abriu em queda de mais de 10% e, assim, foi acionado circuit breaker por meia hora, como mandam as normas da B3.

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O mecanismo é utilizado pela Bovespa permite, na ocorrência de movimentos bruscos de mercado, o amortecimento e o rebalanceamento das ordens de compra e de venda. Esse instrumento constitui-se em uma "proteção" à volatilidade excessiva em momentos atípicos de mercado. 

Até hoje, esse mecanismo foi acionado em 16 ocasiões e a paralisação de hoje é a 17ª. Em 1997, em meio a crise da Ásia, os negócios foram interrompidos em 7 e 12 de novembro. Um ano depois, 1998, na crise da Rússia, foram cinco interrupção das operações por baixa de 10%, sendo que no dia 10 de setembro o mecanismo foi acionado duas vezes. Outras três paralisações do pregão foram em 21 de agosto e 4 e 17 de setembro. Depois, novas interrupções ocorreram na crise cambial brasileira, em 1999, quando em 13 e 14 de janeiro o circuit breaker voltou a ser acionado.

Depois de 1999, o mecanismo só voltou a ser acionado em 2008, período marcado pela crise do sistema financeiro que se instalou nos Estados Unidos após o pedido de concordata do banco Lehman Brothers. Naquele ano, o pregão da Bovespa foi interrompido seis vezes, sendo a primeira em 29 de setembro e as outras cinco em outubro, no dia 6 (parou duas vezes), depois nos dias 19, 15 e 22.

 

 

 

Segundo as regras do circuit breaker, quando o Ibovespa atingir limite de baixa de 10% em relação ao índice de fechamento do dia anterior, os negócios na Bovespa, em todos os mercados, serão interrompidos por trinta minutos.

Passado o circuit breaker, o Ibovespa entrou em leilão de cinco minutos para reinício dos negócios e, a partir daí, passou a operar normalmente. Na mínima, marcou 60.315 pontos (-10,70%). Todos analistas ouvidos pelo Broadcast, notícias em tempo real do Grupo Estado, esperavam o acionamento do circuit breaker logo no início do pregão de hoje. 

Ao longo de uma manhã muito tumultuada, não houve um momento (até as 12h22) em que 100% das ações que compõem a carteira do Índice Bovespa estavam sendo negociadas. Às 14h30, o Ibovespa recuava 9,13% aos 61.442,06 pontos. 

Para Zeina Latif, economista-chefe da XP Investimentos, a expectativa é de uma destruição muito grande de riquezas nos próximos dias, e há um grande risco de investidores estrangeiros deixarem o País para não voltar tão cedo. “O mercado vinha apostando numa melhora de cenário aliada à expectativa de que a reforma da Previdência seria aprovada, mas agora não há mais espaço para isso”, disse. “Tudo o que conseguimos nesse um ano de governo Temer está sendo perdido.”

Segundo Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, o que mais se lamenta é que as reformas vão ficar paradas. “Vamos pagar o preço pela irresponsabilidade do presidente Temer”, disse. Na avaliação de Vale, se não tiver uma solução rápida para essa crise, “o País será jogado novamente para o caos”. MARCELO OSABAKE E FRANCISCO CARLOS DE ASSIS

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