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Política

Lula

Mercadante só virou ministro com Dilma

Titular da Educação, que chegou a ser vice de Lula em 1994, somente subiu no pódio ministerial após a eleição da presidente

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Luiz Maklouf Carvalho,
O Estado de S.Paulo

20 Março 2016 | 03h03

O ministro Aloizio Mercadante, da Educação, alvo de gravação telefônica clandestina por um assessor do senador Delcídio Amaral, tem o título acadêmico de doutor, que um dia a ministra Dilma Rousseff disse que tinha, mas não tinha. Doutor em Ciências Econômicas, pela Unicamp, tal qual a estudante do mestrado almejava ser, na mesma Unicamp. Acabou jubilada pela perda dos prazos, que respeitou e não tentou atropelar. É verdade que “sentiu-se” titulada – e que até incluiu a pós-graduação inexistente em seu currículo de ministra, oficialmente. Mas reconheceu o uso indevido, quando descoberto.

Mercadante, ao contrário, atropelou a perda de todos os prazos e todas as regras da Unicamp para os simples mortais. Titulou-se doutor com normas que só serviram para o caso dele – começando pelo fato de apresentar como tese de doutorado, que se exige inédita, um livro já publicado. No caso, também singular, uma apaixonada defesa dos dois mandatos do governo Lula: As bases do Novo Desenvolvimentismo no Brasil: análise do governo Lula (2003-2010). Defendeu a tese quando já era ministro da Ciência e Tecnologia no primeiro governo Dilma.

“A maior piada foi a do Lula, no telefone, no outro dia: ‘Como é que você pega 900 mil dólares e não dá os 30% do partido?’” Aloizio Mercadante, em entrevista à revista ‘Playboy’, em janeiro de 1994; ele se referia a uma diligência da cpi do orçamento, que resgatou o montante na casa de um investigado

 

A banca era ilustre – a começar pelo ex-ministro Delfim Netto, neolulista –, o auditório esteve cheio e o doutorando mandou bem no proselitismo sem disfarce. Ao fim da demorada e cordial sabatina – com alguns cutucões – o ministro ganhou o título, com louvor e distinção. Um pouco mais tarde, por pura coincidência, o orientador de sua tese, Mariano Francisco Laplane, foi empossado, pelo próprio ministro, agora doutor, na presidência do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), um órgão do Ministério da Ciência e Tecnologia.

Subversivo. Filho de oficial de Exército que apoiou o golpe de 64 e a ditadura – o general Oswaldo Muniz Oliva, sobrenome que não usa –, Mercadante foi subversivo de primeira hora. Destacou-se no movimento estudantil, no curso da economia da USP, e manteve-se à esquerda na pós-graduação da Unicamp e na carreira docente que escolheu seguir, atuando com destaque em entidades sindicais. Desde sempre do Partido dos Trabalhadores, aproximou-se mais de Lula, como amigo e economista preferido, durante a eleição de 1989 para a Presidência da República – perdida para Fernando Collor de Mello.

Já tinha bolsa de estudos para passar três anos estudando na Itália. Desistiu, a pedido de Lula, que queria vê-lo no Congresso. Em 1990 elegeu-se deputado federal, o mais votado do PT, com 120 mil votos. Tinha 35 anos. A vida já lhe pregara duas peças: a viuvez, aos 27, de sua segunda mulher, vítima de um câncer, e a morte, em 1982, de Luis Travassos, ex-presidente da União Nacional dos Estudantes no tempo da ditadura. Travassos e Mercadante eram amigos. Foram passar o carnaval daquele ano no Rio de Janeiro. Um acidente com o carro que Mercadante dirigia machucou Travassos, no banco do passageiro, com gravidade. Horas depois ele morreria no hospital.

O deputado destacou-se no Congresso – tendo combativa atuação na CPI do Orçamento. Entrou para a história o dia em que, com outros deputados da comissão parlamentar, resgatou quase US$ 900 mil na casa do economista José Carlos Alves dos Santos, um dos principais alvos da investigação.

Numa entrevista dada à revista Playboy, em janeiro de 1994, Mercadante contou “a maior piada” daquele momento sobre a fortuna aprendida. “Foi a do Lula, no telefone, no outro dia: ‘Como é que você pega 900 mil dólares e não dá os 30% do partido?’”.

As empreiteiras, à época, eram inimigas preferenciais. Playboy perguntou, por exemplo, lá se vão 22 anos: “E se a Odebrecht oferecesse a você uma casa para passar o fim de semana e a Camargo Corrêa um helicóptero para você ir, você iria?”. Mercadante respondeu: “Não, não iria”. – Por que?, insistiram os repórteres. “No caso da Odebrecht, de cada três crimes, eles estão envolvidos em quatro”. Como se tratava de Playboy, houve algumas perguntas digamos picantes. Uma delas, fazendo jus à fama de conquistador do bigodudo deputado, queria saber se a “lindíssima deputada federal Rita Camata, PMDB-ES” havia dado em cima dele. Mercadante foi rápido e rasteiro: “Não, ela não deu em cima de mim, e eu não tive um caso com a Rita Camata”.

Preterido. Em 1994, com a reeleição para deputado federal praticamente garantida, o economista aceitou um novo convite de Lula: ser o substituto de José Paulo Bisol na candidatura à vice-presidente da República. Perderam para Fernando Henrique Cardoso. No momento da apuração dos votos, que ambos assistiam, na sede do PT, Mercadante deixou escapar um sincero “me f...” – como de fato era o caso.

Lula ouviu, achou mesquinho, e nunca mais as coisas foram as mesmas. Depois de eleito presidente, em 2002, sempre o preteriu, já senador, para os ministérios econômicos ou quaisquer outros. E nunca o teve entre os seus – nem quando Mercadante gastava saliva, no Senado, para defender seus governos.

Só subiu ao pódio ministerial com a presidente Dilma Rousseff. Primeiro na Ciência e Tecnologia, quando se doutorou, depois na Educação, na Casa Civil e agora novamente na Educação. Ainda está para ser contada a história verdadeira de como Mercadante conquistou a presidente da República, e aos poucos firmou-se como integrante do chamado “núcleo duro”. Nunca engoliu ter que voltar à pasta da Educação, mas era o que tinha para aquele momento.

Na terça-feira passada, quando a gravação clandestina do assessor de Delcídio do Amaral veio à luz, Mercadante disse à presidente, convicto e com a prova na mão, que a publicação da conversa fora editada, com a supressão de vários trechos que alteravam o contexto. A prova era a íntegra da gravação, que rapidamente obtivera. Um dos trechos omitidos, que o ministro frisou, como carimbo de inocência, foi a frase “Não tô nem aí se vai delatar, não vai delatar, não tô nem ai”.

A presidente entendeu que o ministro não tinha culpa no cartório, não de todo aquele tamanho, pelo menos. Esperou, como acertado, que ele fosse fortemente assertivo, na coletiva da terça à tarde, na denúncia da edição tortuosa (que só em uma segunda versão acrescentaria os trechos suprimidos). Mercadante até que se esforçou. Na quarta-feira, em sua coletiva, a presidente voltou ao ponto, com maior ênfase. “Eu não tenho porque não manter a minha confiança no ministro Mercadante”, afirmou, depois de citar um dos trechos omitidos. Ministro-doutor, ou doutor-ministro, Mercadante segue no barco.

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