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Mau negócio

Dora Kramer - O Estado de S.Paulo

10 Agosto 2014 | 02h 02

Os empresários da indústria e da agricultura que se reuniram nas duas últimas semanas com os candidatos à Presidência da República manifestaram claramente seu desagrado com o loteamento dos cargos políticos na administração federal.

Na sabatina da Confederação Nacional das Indústrias (CNI) o momento em que o candidato do PSB, Eduardo Campos, recebeu da plateia aplausos mais entusiasmados foi quando repetiu a frase que já virou uma bandeira: "Ninguém aguenta mais governar com Renan, Collor e Sarney".

Respondia à indagação sobre sua disposição de acabar com o modelo de entrega dos ministérios aos partidos. Na semana seguinte, o assunto voltou a ser abordado com mais ênfase na sabatina da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

Das cinco questões a que tinham direito de apresentar aos candidatos, os empresários do agronegócio escolheram o tema na conversa com Campos e com Aécio Neves. Quiseram saber especificamente se eles entregariam os Ministérios do Trabalho e da Agricultura aos feudos partidários de sempre.

O tucano saiu pela tangente. Fez o compromisso, mas preferiu não se alongar na história do fisiologismo e anunciou a criação do "superministério da Agricultura".

Campos desenvolveu sua tese de que é possível quebrar o modelo atual engajando a sociedade na agenda política, tal como ocorrer por ocasião da luta pela redemocratização do País e pela estabilidade econômica.

O importante aqui é notar que o empresariado inclui na pauta o tema do chamado presidencialismo de coalizão como um entrave ao desenvolvimento, uma espécie de custo Brasil adicional. O setor produtivo está farto disso e começa a cobrar dos candidatos.

Um debate que, se ganhar corpo, os deixará durante a campanha numa saia-justa para conciliar esses questionamentos à necessidade de apoio dos políticos para se eleger. Apoios esses diretamente relacionados com a expectativa de ocupação de cargos nos governos, caso venham a ser eleitos.

Regra clara. É verdade que as campanhas ficam mais caras porque as doações de pessoas jurídicas garantem a circulação de volumes maiores de dinheiro.

Mas é verdade também que as novas normas para prestação de contas mês a mês, com a divulgação da quantia e da origem do recurso significa uma evolução no quesito transparência em relação a eleições anteriores.

Inibe o uso do caixa dois, pois com os dados publicados fica mais fácil confrontá-los com possíveis exorbitâncias de gastos.

Com mais de 90% do financiamento sendo garantido pelas empresas, vai ser difícil os partidos chegarem a uma solução que contemple a legalidade e ao mesmo tempo proteja o contribuinte, depois que o Supremo Tribunal Federal confirmar a proibição das doações de pessoas jurídicas para as próximas eleições.

Ganharão força e argumentos os que defendem o financiamento público exclusivo.

Inadmissível. Na visão do governo brasileiro um analista de finanças está proibido de relacionar com clareza os movimentos do mercado à tendência dos resultados eleitorais.

Mas, na concepção do governo brasileiro não é assim tão grave o exercício da difamação a partir dos computadores do Palácio do Planalto.

No caso do Banco Santander a presidente protestou com veemência. No episódio da alteração dos perfis dos jornalistas Miriam Leitão e Carlos Alberto Sardenberg na Wikipédia, deixou a reação para a assessoria, que inicialmente resistiu e só depois de muita crítica se dispôs a apontar o responsável.

As manifestações de jornalistas ou de consultorias são feitas às claras, seus autores perfeitamente identificados. Ao contrário de sujeitos que disseminam mentiras na clandestinidade. Se a prometida investigação não for para valer o governo terá parte nesse infamante ato.