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Entrevista. Marina Silva

Para pré-candidata a vice na chapa de Eduardo Campos, 'legado não pode ser apropriado nem por um partido, nem por uma pessoa'

Marina diz que os 20 milhões de votos de 2010 não são 'herança'

Isadora Peron e Eduardo Kattah

12 Junho 2014 | 02h 00

Evelson de Freitas/Estadão
Para Marina Silva, desempenho nas pesquisas vai mudar quando a campanha começar

Pré-candidata a vice-presidente na chapa de Eduardo Campos (PSB), Marina Silva diz que os votos que teve na eleição de 2010 - quase 20 milhões (19,33% da votação do 1.º turno) - não poderão ser transferidos a um partido ou a um candidato na atual disputa. Ela diz não se tratar de capital político ou herança, e sim de um "legado".

A declaração da ex-ministra do Meio Ambiente do governo Lula ocorre num momento em que o pré-candidato do PSB ainda é uma incógnita eleitoral. Segundo o Ibope, Campos rompeu a barreira de um dígito e soma 13% da preferência do eleitorado. Se o nome de Marina aparece associado ao dele, o índice vai a 18%, deixando-o próximo do outro pré-candidato da oposição, o tucano Aécio Neves. Os institutos Datafolha e Vox Populi, porém, mostram o ex-governador de Pernambuco com 7% e 8%, respectivamente, ainda longe de se tornar uma terceira via competitiva.

O que a sra. achou da pesquisa Ibope divulgada na terça-feira?

Essas fotografias de momento não podem ser nem desconsideradas nem absolutizadas. A gente recebe a pesquisa com o respeito e a tranquilidade de quem sabe que estamos só no começo (da campanha). Em 2010, mais ou menos nesse período, eu estava com 5% ou 7%.

Até que ponto o seu capital político, conquistado em 2010, pode ser transferido para Campos?

Eu não trabalho com essa linguagem de capital político.

Por quê?

Eu considero o voto das pessoas como um ato de liberdade, em que ela dá aquele voto naquele momento e depois se recolhe para decidir por ela mesma em quem vai votar nas próximas eleições. Foi isso que eu fiz desde o começo. Nunca tratei os quase 20 milhões de votos nem como capital nem como herança, mas como um legado no sentido de que isso sinalizou fortemente para a sociedade que as pessoas também estão preocupados em debater propostas. Esse legado não pode ser apropriado nem por um partido nem por uma pessoa. Ele é sobretudo um ganho da qualidade política da sociedade brasileira. Hoje eu me disponho a dialogar com esse legado.

As candidaturas de PT e PSDB têm mais recursos e tempo de TV. Como o PSB vai rivalizar com esses partidos?

Primeiro, não temos a pretensão de rivalizar. A pergunta é como vamos fazer para compensar o fato de que não temos nem queremos confinar nosso projeto político à velha lógica das estruturas. Eu tenho insistido que esse novo sujeito político, que está surgindo no mundo e no Brasil, não está preocupado com as estruturas e que esta vai ser uma campanha em que a sociedade vai estar buscando enxergar as posturas. Se a Dilma ganhar, os autores dessa vitória serão, sem sombra de dúvidas, todos os meios e recursos em abundância de que dispõe para isso. Deputados, senadores, governadores, prefeitos, vereadores, tempo de televisão, recursos... A mesma coisa acontece com o PSDB. No caso do nosso projeto, se vencermos, a autoria dessa vitória vai se chamar povo brasileiro.

Por que Campos ainda não conseguiu se tornar uma opção para quem demonstra um sentimento de mudança?

Nós ainda não tivemos os espaços para buscar esse convencimento. Isso vai acontecer quando começarmos a ter a cobertura da mídia, quando se iniciarem os debates. Neste momento estamos nos preparando para quando tivermos a oportunidade da exposição das ideias, do nosso projeto, as pessoas possam, a partir de seus critérios, entender que essa é uma alternativa para o Brasil, que será capaz de manter as conquistas, mas que se dispõe a corrigir os erros e enfrentar novos desafios dentro de uma ideia política que nem PT nem PSDB tem condição de protagonizar.

A sra. fala muito em quebrar a polarização entre PT e PSDB. Mas em São Paulo e em outros Estados o PSB estará coligado com os tucanos.

Em outubro, já estava claro que, no Paraná, o PSB iria com o PSDB, e que a Rede teria que adotar uma posição independente. Em outros Estados estamos em processo de construção de um consenso, como é o caso de Minas. O que eu sempre disse é que a Rede iria lutar para convencer que a melhor tese era a da candidatura própria, principalmente em São Paulo. O Eduardo Campos se convenceu disso desde o primeiro dia, tanto é que dialogou com o PSB, com o doutor Márcio França.

Mesmo assim o PSB paulista decidiu, na semana passada, apoiar a reeleição do governador Geraldo Alckmin (PSDB).

Num primeiro momento, Márcio França foi a Brasília, disse que estava aceita a tese da candidatura própria, que ele seria o candidato, mas ele não se movimentou para viabilizar a sua candidatura e depois houve essa reunião que desconstruiu com o que ele havia se comprometido com o Eduardo. E o Eduardo sempre disse que não iria intervir nas instâncias dos partido.

Mas Campos interveio em 2012, para que o PSB apoiasse o PT em São Paulo.

Pois é. Eu acho que deve ter acontecido alguma aprendizagem em relação a essas situações. Neste momento ele tem uma agenda de buscar o convencimento com o partido, que tem 65 anos, que tem instâncias que se pronunciam. Eu vi ele fazendo isso no Amazonas, em vários lugares. E eu vi o quanto ele se esforçou para fazer o mesmo em São Paulo.

Em algum momento a sra. pensou em deixar a chapa presidencial depois da decisão do PSB em São Paulo?

O tempo todo as pessoas ficam buscando razões para que eu e o Eduardo nos desentendamos, mas nós estamos conversando o tempo todo. Quem estava convivendo com a situação sabia que não haveria intervenção (na decisão do diretório), então eu não posso dizer que eu estava esperando dele outra atitude.

E qual caminho a Rede pretende seguir em São Paulo?

Hoje o que está sendo discutido é a possibilidade de a Rede apresentar uma candidatura ao Senado. Eu, pessoalmente, considero isso uma conquista. É importante que o PSB mantenha um espaço independente, não coligado com o projeto político do PSDB, que governa São Paulo há 20 anos. Vamos olhar apenas para a agenda socioambiental do Estado de São Paulo. Não precisa nem ir nos detalhes. É só olhar o que está acontecendo com o abastecimento de água para mostrar o quanto essa agenda foi negligenciada. Eu não consigo entender como estar no projeto do PSDB, eleitoralmente falando, possa ser um ganho para a candidatura de Eduardo Campos.

Em quantos Estados PSB e Rede vão estar no mesmo palanque?

Estaremos juntos em 14 ou 15 Estados. Mas nós sempre dissemos que a base da nossa aliança era o programa nacional e que, onde não fosse possível estar juntos, iríamos manter as nossas independências.

A presidente Dilma Rousseff está indo mal nas pesquisas e há quem torça pelo "Volta, Lula". Se o ex-presidente fosse candidato, a sra. e Campos continuariam na disputa?

Em 2010, quando eu era candidata, eu respondi a essa pergunta com muita tranquilidade. Eu disse que aquela seria a primeira vez que eu não iria votar no Lula. Só que eu tinha uma razão bem interessante para fazer isso, porque eu ia votar em mim mesma. Sobre o "Volta, Lula", eu vou repetir aqui um coisa que eu costumo dizer. O Lula é, sem sombra de dúvidas, uma bala de prata do PT. Mas com dois problemas. O primeiro é que uma bala de prata nunca pode falhar, e o segundo é que eles teriam que fazer dois movimentos muito complexos, porque para usar a bala de prata contra os adversários, primeiro ela teria que ser usada contra a presidente Dilma.