Rafael Arbex/Estadão
Rafael Arbex/Estadão

Cunha é chamado de 'sem-vergonha' em protestos pelo País

Deputado está envolvido em denúncias de corrupção e idealizou projeto que transforma em crime propaganda e indução ao aborto

O Estado de S. Paulo

08 Novembro 2015 | 11h31

Atualizado às 15h59

Manifestantes realizaram protestos contra o presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) em várias capitais do País neste domingo, 8.

Em São Paulo, o peemedebista e o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, são os alvos principais de uma manifestação que reúne centenas de pessoas na Avenida Paulista nesta tarde.

O ato, que é liderado pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Central Única dos Trabalhadores (CUT) e outras trinta organizações, também protesta conta o pacote de ajuste fiscal do governo.

A concentração começou às 14hs. Até às 15hs, cerca de 1000 pessoas estavam presentes em frente ao MASP, segundo estimativas não oficiais da Polícia Militar. Os organizadores falam em 20 mil. "Eduardo Cunha é um bandido engravatado e um sem-vergonha. Nossos companheiros vão ficar acampados em  Brasília até que ele caia. É uma vergonha o Cunha ainda não estar preso", disse o líder do MTST, Guilherme Boulos, em discurso em cima do carro de som.

Em outro momento de sua fala, o dirigente prometeu promover uma "ocupação" e um "acampamento" na Câmara se forem feitos cortes em programas sociais como o Minha Casa, Minha Vida. "Se houver cortes no Minha Casa, Minha Vida e outros programas sociais, esse País vai pegar  fogo. Fora Cunha, Fora Levy", disse Boulos.

Em um  manifesto publicado pela frente, os movimentos chamam Cunha de "ladrão blindado" e apontam o peemedebista como "representante da política conservadora". "Exigimos o fora Cunha e somos contra o ajuste fiscal. Um dos grandes representantes da política conservadora é Eduardo Cunha", diz o texto assinado pelos movimentos sociais.

Cunha é investigado no âmbito da Operação Lava Jato, sob acusação de receber propina com dinheiro desviado da Petrobrás por meio de contas na Suíça. O presidente da Câmara tem negado todas as acusações.

Ele é alvo de um processo de cassação da mandato no Conselho de Ética da Casa, sob a acusação de ter mentido a integrantes da CPI da Petrobrás sobre ter contas bancárias  fora do País. Em sua defesa, ele deve afirmar que falou a verdade à  comissão, pois possuía dinheiro em um ''trust", espécie de fundo de investimentos.

Em São Paulo, a programação feita pelos organizadores é que os manifestantes marchem até o parque do Ibirapuera, onde devem ocorrer shows com artistas populares. Além de eventos na capital paulista, a frente organizou atos nas cidades de Belo Horizonte, Porto Alegre, Uberlância, Palmas, Boa Vista, Fortaleza, Curitiba e também no Rio.

Cunha foi alvo de vários protestos desde que surgiram as denúncias de que teria contas ocultas na Suíça. Nesta semana, manifestantes jogaram notas falsas de dólares enquanto Cunha concedia uma entrevista coletiva a jornalistas na Câmara.

Em Brasília, integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) realizaram o ato que contou com cerca de 200 pessoas, de acordo com o movimento. O grupo partiu do terminal rodoviário da capital federal e caminhou pelo Eixo Monumental até o gramado em frente ao Congresso Nacional. No local, eles incendiaram um boneco do peemedebista feito por eles.

Ao final do ato, três integrantes do movimento chegaram a ser detidos, mas foram soltos logo em seguida. Segundo a Polícia Civil, um integrante de 15 anos do MTST agrediu outro membro do movimento de 19 anos durante uma discussão. O pai do adolescente se meteu na briga e também acabou detido. Eles foram levados para a delegacia, mas foram liberados após retirarem a denúncia. 

Apesar do incidente interno, desta vez integrantes do MTST não entraram em confronto com membros do Movimento Brasil Livre (MBL) que estão acampados no gramado do Congresso desde a semana retrasada, pedindo o impeachment da presidente Dilma Rousseff. No último dia 28 de outubro, quando o protestavam contra a aprovação do projeto que tipifica o crime de terrorismo, houve bate-boca e empurra-empurra entre integrantes dos dois movimentos.

Churrasco. Neste domingo pela manhã, integrantes do Movimento Brasil Livre fizeram um churrasco no acampamento montado em frente ao Congresso. Eles assaram carnes, como picanha e costela, em churrasqueira montada no próprio gramado. Alguns manifestantes tentaram impedir repórteres fotográficos de fazerem imagens do churrasco. Eles chegaram a hostilizar jornalistas, acusando a imprensa de tendenciosa ao publicar matérias sobre o protesto.  

Apesar de autorizado pelo presidente da Câmara, o protesto do MBL fere ato do Congresso de 2001 que proíbe a montagem de tendas no gramado da Casa. Pela assessoria de imprensa, Cunha disse que autorizou o protesto como "autorizaria qualquer outro movimento que não esteja sob riscos de seguraça, nem coloquem em risco as pessoas que circulam pelo local, respeite o patrimônio público, as normas de trânsito e não tenha natureza hostil".

Belo Horizonte. Cerca de 300 pessoas, conforme informações da Polícia Militar, participaram de manifestação contra o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), na Praça da Liberdade, Região Centro-Sul de Belo Horizonte. O parlamentar é criticado pelo apoio a projetos de lei que retiram direitos das mulheres.

"Sou médica e estou aqui porque sei que o Cunha faz mal para a nossa saúde", afirma Maria Esther Vilela, de 59 anos. "O presidente da Câmara está interferindo na vida das mulheres, de forma a interferir na autonomia que temos sobre nossos corpos", acrescentou a médica. Entre as medidas apoiadas por Eduardo Cunha e criticadas pelos manifestantes está o projeto de lei 5069/13, idealizado pelo deputado, que transforma em crime a propaganda e indução ao aborto.

Mulheres, muitas com placas de "Fora Cunha", dançam ao som de uma charanga. Integrantes do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) também participam do protesto. Logo no início da manifestação, houve pequeno tumulto quando a Polícia Militar tentou desobstruir uma das vias que circulam a praça. Um integrante do MLB reclamou da forma que um policial pegou em seu braço. O desentendimento, no entanto, terminou logo em seguida.

Os manifestantes seguiram para a Praça da Estação, também na Região Centro-Sul de Belo Horizonte, onde encerrarão a manifestação contra Eduardo Cunha. "O grito mais entoado é "ai, ai, ai, ai empurra o Cunha que ele cai".

O funcionário público Marcelo Jonas da Silva, de 45 anos, que participa do protesto, afirma que Cunha tem que sair não só pela tentativa de retirada de direitos das mulheres, mas pelas suspeitas de irregularidades no envio de recursos para a Suíça.

Sobre a manifestação de hoje, o funcionário público afirma que as mulheres têm que ter seus direitos assegurados em proporção maior que os homens. "O motivo é simples. Elas ainda são discriminadas. Um exemplo disso é que ganham menos do que nós", argumenta.

Curitiba. Na capital paranaense, o ato foi organizado na periferia pelo Movimento Popular pela Moradia (PMP) e pelo movimento Povo Sem Medo, que reúne outros movimentos populares, e que pedem a renúncia de Cunha. Além do presidente da Câmara, a manifestação atacou a aliança do governo federal com setores considerados conservadores e o provável corte de investimentos nos programas populares.

Atingido por denúncias de corrupção, Cunha tem sido criticado por ter tentado, segundo o MPM, restringir os investimentos da Caixa Econômica Federal (CEF). “Caso seu projeto fosse aprovado não teríamos mais investimentos em moradias populares”, disse um dos coordenadores do MM, Crisanto Figueiredo. 

Segundo os organizadores, 1,1 mil participaram do evento que, mesmo com chuva, atraiu os moradores das ocupações Primavera, 29 de Março e Tiradentes – todas na região - , cuja população chega a 1,3 mil pessoas, que aguardam habitação. Não houve uma estimativa de público por parte de órgãos oficiais.

Na opinião de Crisanto, o mau momento ruim vivido pelo país não é apenas por causa de Cunha, pois o governo federal também erra ao promover alianças grupos considerados conservadores. “Ele ameaça com impeachment, o governo recua, depois ele recua por causa das denúncias, mas volta a ameaçar, esse círculo precisa terminar”, comentou.

Agenor Sampaio, 62, mora na região e participou da manifestação para que não ocorram cortes na área de moradias. “Precisamos defender o que foi conseguido, mas seria uma mudança (saída de Cunha) para melhor”, disse.

No sábado à tarde, cerca de mil pessoas participaram, juntamente com a Virada Cultural que acontece na cidade, de uma manifestação pedindo a saída de Eduardo Cunha. A Virada termina neste domingo, com apresentação de Emicida e estão previstos novos protestos./ ComPedro Venceslau, Ricardo Chapola, Igor Gadelha, André Dusek, Leonardo Augusto e Julio Cesar Lima

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