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Lula tenta consolidar aliança de Dilma, mas PMDB ameaça levar crise ao Senado

Vera Rosa, Débora Bergamasco e Daiene Cardoso - O Estado de S. Paulo - Atualizado às 23h50

05 Março 2014 | 20h 26

Cúpula da campanha à reeleição se reúne no Alvorada em meio a tensão capitaneada por líder peemedebista na Câmara; senadores do partido também reclamam de impasse na reforma ministerial e não descartam aderir ao grupo descontente

BRASÍLIA - Diante do agravamento da tensão com o PMDB, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarcou nesta quarta-feira em Brasília e se reuniu com a presidente Dilma Rousseff, na tentativa de soldar a aliança para a campanha da reeleição. Lula e a cúpula do PT avaliam que Dilma deve ser mais "política" e não entrar em novo confronto com a ala do PMDB representada pelo líder do partido na Câmara, Eduardo Cunha (RJ), para evitar que os problemas se estendam ao Senado e à campanha pelo segundo mandato.

O encontro de Dilma e Lula estava marcado antes de Cunha pregar o rompimento da parceria com o PT, uma ofensiva lançada na terça-feira de carnaval que causou preocupação no governo. Pelo Twitter, o líder do PMDB na Câmara defendeu que o partido deveria "repensar a aliança" com o PT. Ontem, o presidente do PMDB, senador Valdir Raupp (RO), disse que a situação está ficando "insustentável" e pode chegar ao Senado. O peemedebista também cobrou uma solução para a empacada reforma ministerial.

"Lula saberá avaliar se o PMDB quer mesmo sair de verdade da coalizão ou se quer sair para poder entrar mais", disse ao Estado um ministro do PT, sob condição de anonimato. No Palácio do Planalto, Cunha é visto como "imprevisível" e capaz não apenas de fazer bravatas como de pôr a reedição da dobradinha com o PMDB em risco.

Além de Lula, toda a coordenação da campanha petista se reuniu com Dilma no Palácio da Alvorada. O presidente do PT, Rui Falcão, foi um dos primeiros a chegar. O marqueteiro João Santana, o jornalista Franklin Martins, que coordenará a comunicação do comitê, o tesoureiro Edinho Silva, o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, e o chefe de gabinete de Dilma, Giles Azevedo, também participaram do encontro.

O Instituto Lula fez questão de divulgar a foto da reunião para desfazer boatos de que Dilma e o ex-presidente estão estremecidos. Nos últimos dias, deputados do PT, dirigentes do PMDB e até empresários irritados com o governo entoaram um tímido coro de "Volta Lula", desautorizado pelo próprio ex-presidente. Na imagem, Dilma levanta a mão de Lula, num gesto de sintonia.

‘Insustentável’. Do lado peemedebista, a avaliação é de que a crise iniciada na bancada da Câmara já tem chances de chegar ao Senado. "A presidente Dilma não quer ceder, acha que o PMDB está forçando a barra. Só que agora está insustentável e a crise já está chegando ao Senado", afirmou Valdir Raupp. Pelos cálculos do presidente do PMDB, cerca de um terço dos senadores do partido já prefeririam abandonar a dobradinha com o PT. "Já nem sei mais qual é o motivo do descontentamento. Acho que parte é pelo nosso desprestígio na reforma ministerial e parte pelas alianças regionais", afirmou.

Na manhã desta quarta, o vice-presidente Michel Temer acionou parlamentares de sua confiança para apagar o novo foco de incêndio político. A missão é evitar que a convenção do PMDB seja antecipada, como ameaça o grupo de rebelados sob liderança de Eduardo Cunha. Se isso ocorrer, no cenário de hoje, a votação pelo rompimento da aliança com o PT é dada como certa. Além da insatisfação em relação à reforma ministerial, o PMDB se queixa do tratamento dado pelo PT para a montagem dos palanques regionais. Hoje, os dois maiores partidos da coalizão só têm possibilidade de formar palanques conjuntos em cinco Estados.

Até o início de fevereiro, a cúpula do PMDB também avaliava que a tensão era motivada apenas pela pressão "legítima" da legenda na Câmara, com o intuito de ocupar espaços, depois que o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, entregou os cargos do PSB e anunciou a candidatura ao Planalto. A situação, porém, fugiu do controle.

Impasse. Na terça-feira, Cunha defendeu a antecipação da convenção do PMDB de junho para março, uma tática para colocar a aliança com Dilma em xeque. A presidente deixou o PMDB "de molho" na reforma ministerial e resiste a entregar a pasta da Integração Nacional ao senador Vital do Rêgo (PB). Dilma só concordou em pôr nessa vaga o líder do PMDB no Senado, Eunício Oliveira (CE), para tirá-lo da disputa estadual e favorecer o governador Cid Gomes (PROS). Eunício recusou a oferta. A proposta alternativa, agora, consiste em nomear Vital do Rêgo para o Turismo.

Dirigentes do PMDB não se cansam de dizer que o partido tem só cinco ministérios, enquanto o PT controla 17. "Eu esperava mais do Mercadante na articulação política do governo", disse Cunha ao Estado. "Somos chamados de fisiológicos, mas é o Rui Falcão que está sempre atrás de uma boquinha."

Falcão não quis responder às críticas do aliado para não piorar o desgaste. "Torço para que a paz volte a reinar e estou disposto a ajudar a apagar incêndio, a recompor, mas confesso que estou muito preocupado. A insatisfação é geral, está muito complicado", disse Raupp. "O PT nunca respeitou o PMDB. Somos só 6 minutos de propaganda eleitoral para eles. Nada mais!", postou o deputado Osmar Terra (RS) no Twitter.

O líder do PT na Câmara, Vicentinho Paulo da Silva (SP), tentou amenizar a crise. "Será que Eduardo Cunha não quer que o Temer seja vice de novo de Dilma? Não posso acreditar que um partido que tem a Vice-Presidência da República decida sair fora agora." / COLABOROU RICARDO DELLA COLETTA

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