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Entrevista. André Vargas

Deputado dá primeira entrevista após a revelação de que o doleiro Alberto Youssef, preso pela Polícia Federal, emprestou a ele um jatinho

'Lula seria imbatível nessa eleição. Dilma não tem o mesmo carisma'

Daiene Cardoso

Ricardo Brito e Vera Rosa

03 Agosto 2014 | 05h 00

Sob ameaça de cassação pelo Conselho de Ética da Câmara, o deputado federal André Vargas (sem partido-PR) apontou o dedo para o PT e disse não poder culpar a oposição por pedir o seu mandato.Nesta semana, se houver quórum no Congresso, o deputado Júlio Delgado (PSB-MG), relator do processo contra Vargas no Conselho de Ética, apresentará parecer recomendando a cassação do colega por quebra de decoro parlamentar. Na primeira entrevista após a revelação de que o doleiro Alberto Youssef, preso pela Polícia Federal, emprestou a ele um jatinho, Vargas afirmou que foi obrigado a se desfiliar do PT para proteger a presidente Dilma Rousseff e os candidatos do partido em São Paulo, Alexandre Padilha, e no Paraná, Gleisi Hoffmann.

"Lula seria imbatível nessa eleição. Seria imbatível pelo governo que fez e pelo carisma que tem. É claro que o governo da presidente Dilma é a continuidade do de Lula, mas acho que poderia ser melhor. Ela não tem o mesmo carisma", disse o deputado, que renunciou à vice-presidência da Câmara, em abril, logo após ter o nome envolvido no escândalo.

Para Vargas, a cúpula do PT o jogou às feras sem direito a explicação.

"Eu cometi uma imprudência, não um crime. A oposição está fazendo o papel dela. Nós, do PT, é que não fizemos o que era esperado”, afirmou, como se ainda fosse filiado ao partido. “Não pedimos o mandato de quem está sendo investigado pelo negócio do cartel dos trens, em São Paulo", emendou, numa referência à investigação que atinge os tucanos. Logo em seguida, voltou a artilharia contra o candidato do PSDB, Aécio Neves, que construiu um aeroporto na fazenda do tio quando era governador de Minas. "Se Aécio fosse do PT, a oposição já teria pedido a cassação do mandato dele".

André Dusek/Estadão
André Vargas diz que foi obrigado a se desfiliar do PT para proteger Lula e Dilma

O senhor emprestou um jatinho do doleiro Alberto Youssef e agora pode perder o mandato. Embora negue proximidade empresarial com ele, como explicar a troca de mensagens interceptada pela Polícia Federal, falando em independência financeira?

As aparências podem enganar. O que eu digo nessa mensagem? Nada. Aquilo que foi publicado é uma bravata do Alberto Youssef. Não fui eu que falei em independência financeira. Foi ele. Sociedade ele tinha com a Igreja (Segundo documentos da Operação Lava Jato, o doleiro é sócio de um hotel em Aparecida, no interior paulista, construído em terreno da Igreja Católica). E isso não é nenhuma ilegalidade. A Igreja confiou no Alberto Youssef e no seu grupo de investimentos do mesmo jeito que eu confiei ao tratar de um projeto importante, que era da Labogen. Eu tinha proximidade com ele, mas não tinha negócios. Então, não tem evasão de divisas, corrupção de funcionário da Petrobrás, lavagem de dinheiro. Cometi uma imprudência ao pegar o jatinho emprestado. Estou pagando muito caro por isso. Mas não há quebra de decoro nem crime.

Se o senhor não cometeu crime, por que renunciou à vice-presidência da Câmara?

Entendi que não havia condições de ser vice-presidente da Câmara e compatibilizar o cargo com a minha defesa. 

O senhor era sócio de Alberto Youssef no laboratório Labogen?

Lógico que não. Youssef diz que um dos fundos (de investimento) dele era sócio. 

Mas o senhor encaminhou representantes da Labogen ao Ministério da Saúde. Escutas da Polícia Federal sugerem que houve tráfico de influência. Se não foi tráfico de influência, foi o quê?

Entre a Polícia Federal sugerir e ter provas de que isso aconteceu vai uma longa distância. Os relatórios parciais da PF que foram vazados seletivamente não são documentos oficiais de um inquérito. Aliás, não há inquérito contra mim. Eu entreguei o material deles (Labogen)para o ministro Padilha (Alexandre Padilha, ex-ministro da Saúde e hoje candidato do PT ao governo de São Paulo) no meu gabinete e ele deve ter marcado uma reunião técnica. É a coisa mais normal do mundo. Encaminhei e acabou. É por isso que um mandato vai ser ceifado? Isso não é advocacia administrativa. Se tiver crime aí, teremos problemas no nosso Parlamento, porque isso é comum.

Quem pediu para o senhor encaminhar esses papéis foi o Youssef?

Em conversas informais foi o Youssef e em conversas formais foi o Leonardo Meirelles (dono da Labogen), que esteve no meu gabinete e me entregou esse material de apresentação. O que há de ilegal com Alberto Youssef não está sendo investigado no Supremo.

E o que há de ilegal?

São 33 inquéritos. Tem empresas, sigilos quebrados, construtoras, empreiteiras. E (a investigação) não deve ser só de obras públicas da Petrobrás. Pensem bem: se o contrato da Labogen não aconteceu, se o jatinho custa R$ 100 mil e se o Ministério Público está investigando R$ 10 bilhões, então.... Isso não tem nada a ver comigo. 

O senhor foi abandonado pelo PT após o escândalo. Quem mais o pressionou a se desfiliar?

Foi o presidente do PT, Rui Falcão. Ele entendeu que eu estava criando um problema político para a campanha da presidenta Dilma e para as eleições nos Estados. Então, eu resolvi preservar o meu partido. A direção do PT poderia ter me dado um tempo para provar que de fato não existia nada mais do que uma viagem de jatinho. Fui imprudente, reconheço. Mas me sinto bastante acolhido pela militância do PT.

O senhor foi um dos mais árduos defensores do movimento “Volta, Lula”. Diante das dificuldades enfrentadas pela presidente Dilma nessa campanha, acha que Lula seria uma opção melhor para o PT?

Lula seria imbatível nessas eleições. Seria imbatível pelo governo que fez e pelo carisma que tem. É claro que o governo da presidenta Dilma é a continuidade do de Lula, mas acho que poderia ser melhor. A presidenta Dilma não tem o mesmo carisma. Do ponto de vista eleitoral, a competitividade seria maior. Mesmo assim, sou daqueles que defendem que quem está governando dispute a reeleição. Ao não disputar, o partido pode passar todo o período eleitoral explicando por que o governante foi substituído na campanha. 

Sua situação pode prejudicar a campanha de Gleisi Hoffmann ao governo do Paraná e a de Alexandre Padilha em São Paulo?

Há o prejuízo de usar o caso como se fosse corrupção, e não é. Se o assunto for voo de jatinho, nós temos o caso do senador Álvaro Dias (PSDB-PR). Em 1998, por exemplo, o Álvaro Dias andou no avião do Alberto Youssef durante a campanha. Agora, acredito que eu seria um forte candidato à Câmara ou ao Senado. Seria um sargento eleitoral, mas não estarei lá. Não sei medir o efeito na campanha de Padilha, que foi um grande ministro. Não houve nada ilegal em relação ao contrato com a Labogen.

E por que o contrato foi suspenso?

Suspenderam por causa da repercussão. Como se faz com licitações, para verificar melhor. Fizeram uma grande auditoria, que aponta novas formas de se fazer, mas nenhuma ilegalidade. Luta política é assim. Agora, o PSDB tem muito o que responder, não é? Viajar num avião é muito menos sério do que pegar dinheiro do povo e construir um aeroporto na fazenda do tio.

O senhor está se referindo à construção do aeroporto na fazenda do tio do presidenciável Aécio Neves?

Se Aécio Neves fosse do PT a oposição já teria pedido um Conselho de Ética para cassar o mandato dele. E reconheço que, do jeito que o PT é, teria entregue o mandato. Sou vítima da pressa do PT. O PT, muitas vezes, toma medidas muito apressadas para resolver um problema que nem sempre é tão grande. Eu não posso culpar a oposição por pedir o meu mandato. A oposição fez o papel dela.

Nós, do PT, é que não fizemos com a oposição o que era esperado. Não pedimos, por exemplo, o mandato de quem está sendo investigado pelo negócio do cartel dos trens, em São Paulo.

Então o senhor acha que o PT poupou o PSDB?

Quando você está governando, essa política do ‘olho por olho, dente por dente’ não funciona. Agora, realmente, vamos ser sinceros: se eu tivesse feito uma pista de autorama no fundo da minha casa com dinheiro público, provavelmente enfrentaria uma representação no Conselho de Ética. Eu também não viajei no avião da FAB com minha família com dinheiro do povo (como fizeram os presidentes da Câmara, Henrique Eduardo Alves, e do Senado, Renan Calheiros, ambos do PMDB).

O ex-presidente Lula também disse que o PT não poderia pagar o pato do escândalo protagonizado pelo senhor...

A fala do Lula é a mais precisa e correta. Ele disse: ‘Espero que não tenha mais do que uma viagem de jatinho e que ele se explique para o PT não pagar o pato”. Essa frase me redime porque não tem mais do que uma viagem de jatinho.

O deputado Júlio Delgado (PSB-MG), relator do seu processo na Câmara, é o mesmo que condenou o ex-ministro José Dirceu na crise do mensalão. O senhor se sente um novo José Dirceu?

Não. A situação de José Dirceu é de maior injustiça ainda.

Contra ele nem viagem de jatinho tem. Nem telefonema ou troca de mensagens. Júlio Delgado disse que eu tento manter um mandato que não representa mais ninguém. Olhem a declaração do gajo: 'Ele só atrapalha todo mundo para terminar um mandato absolutamente melancólico'. Vejam se não é suspeito um cidadão desses como relator do processo. Está fazendo prejulgamento porque tem o ressentimento da política. Ele perdeu a eleição para a presidência da Câmara para o Henrique Eduardo Alves porque o PT não o apoiou