Lula resiste e centrais atacam novo mínimo

Presidente insiste em valor de R$ 540 e critica campanha de sindicalistas

Leonencio Nossa / BRASÍLIA e Lucas de Abreu Maia / SÃO PAULO, O Estado de S.Paulo

27 Dezembro 2010 | 21h00

Em dia de protesto de estudantes contra o reajuste dos parlamentares, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reclamou da campanha dos sindicalistas por um salário mínimo superior à proposta de R$ 540. As centrais sindicais reivindicam o valor de R$ 580.

 

Lula, que tomou café da manhã com jornalistas, disse que qualquer alteração no mínimo será decidida pela sucessora, Dilma Rousseff. Para o presidente, os sindicalistas não estão aceitando acordo fechado em 2007, que prevê reposições do salário mínimo levando em conta perdas com a inflação e a variação do Produto Interno Bruto (PIB) de dois anos antes.

 

"Os companheiros sindicalistas não podem fazer um acordo e esse acordo só vale quando se é para ganhar mais", disse. "Temos um acordo para recuperar o salário mínimo até 2023."

 

O deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), presidente da Força Sindical, afirmou que prepara emendas à medida provisória que instituirá o valor do salário mínimo a fim de elevá-lo para R$ 580. Além disso, ele vai propor reajuste de 10% para as aposentadorias acima do mínimo.

 

"O presidente Lula negociou nos sete primeiros anos de governo e deixou de negociar no último", alfinetou o deputado. "Parece até que ele perdeu um pouco da sensibilidade social que teve este tempo todo."

 

Na segunda-feira, 27, a Força divulgou nota atacando o valor apontado pelo presidente. "Os insensíveis tecnocratas, ainda enraizados na área econômica, insistem em dar um pífio aumento para o salário mínimo", diz o texto, ressaltando que o aumento real tem impacto sobre toda a economia.

 

O presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Artur Henrique, ressaltou que o mínimo de R$ 540 pode ficar abaixo da inflação de 2010. "É um absurdo que só os trabalhadores paguem pela crise de 2008."

 

As críticas foram ecoadas pelo presidente da União Geral dos Trabalhadores (UGT), Ricardo Patah: "Estamos muito decepcionados com essa decisão. O presidente tomou medidas corretíssimas no combate à crise e, agora, tinha de recompensar os trabalhadores que mais acreditaram nele."

 

Juros. Durante o café, o presidente evitou dar palpites sobre a economia brasileira no próximo ano. Ele observou que, a partir do dia 1º, haverá outro governo e outra diretoria do Banco Central. "Eu não vou falar se é hora de subir ou não (os juros). A última vez que o Copom se reuniu no meu governo, não aumentou", disse. "A dosagem do remédio será dada pela autoridade monetária."

 

Ao analisar a crise financeira internacional, o presidente destacou que o seu governo tomou medidas para aumentar o crédito no mercado. Ele afirmou que houve uma "intervenção forte" no Banco do Brasil e na Caixa para agilizar medidas de combate à crise. "Nós aqui levamos dez dias para resolver o problema de financiamento de veículos. O (Barack) Obama levou sete meses para resolver o problema da General Motors."

 

Pouco depois da entrevista, cerca de cem estudantes despistaram a segurança e ocuparam a rampa do Palácio do Planalto em protesto contra o aumento de salários dos parlamentares e à política educacional do governo.

 

A ideia era subir a rampa do Congresso, mas o excesso de seguranças na frente do prédio levou os manifestantes a mudar de estratégia. Sobrou para a presidente eleita: "Dilma, que papelão, tem dinheiro para ministro mas não tem para a educação", diziam, em coro.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.