EFE/Antonio Lacerda
EFE/Antonio Lacerda

Lula preso. E agora?

Nova pesquisa Ipsos analisa a prisão do ex-presidente no âmbito da Operação Lava Jato

Danilo Cersosimo*, O Estado de S.Paulo

14 Abril 2018 | 22h26

A prisão do ex-presidente Lula não causou indiferença aos brasileiros – e nem poderia ser diferente, tamanha a magnitude do caso e da importância da sua figura política. Em pesquisa Ipsos** realizada entre o sábado e a segunda-feira (a primeira a ouvir a opinião pública sobre o tema), 99% dos entrevistados disseram ter ouvido falar de sua prisão. E, no calor do momento, a população se mostrou dividida: 46% se posicionou contra e 50%, a favor de seu encarceramento.

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Tal polarização se explica por outro ponto de vista que também dividiu opiniões: 47% das pessoas concordam com o argumento do ex-presidente e de seu partido de que a Lava Jato até agora nada provou contra Lula, ao passo que outros 47% discordam dessa afirmação.

Em que pese essa divisão, 69% das pessoas acreditam que Lula esteja envolvido em esquemas de corrupção, ao passo que 57% o imputam como culpado (contra 32% que acham que ele é inocente). Paradoxalmente, 50% entendem que a prisão do ex-presidente é justa, em oposição a 44% que a veem como injusta.

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A explicação dessa aparente contradição se dá no fato de que aos olhos da opinião pública, Lula e o PT não são os únicos envolvidos em atos de corrupção no Brasil – 91% dos brasileiros acreditam que a Lava Jato deveria investigar todos os políticos, mas somente 41% entendem que a operação o está fazendo de fato.

Além disso, se para 44% da população Lula é tido como mais corrupto que os outros políticos, para outros 56% as investigações estão mostrando que todos os políticos são corruptos.

É possível interpretar que há quem acredite que o ex-presidente esteja envolvido em esquemas de corrupção e seja culpado por isso, mas seja por fidelidade ideológica, identidade partidária ou adoração a sua personalidade, o absolvam. Esse é o contingente que Lula buscará manter durante seu período no cárcere, ainda apostando em um milagre jurídico (altamente improvável) que permita que se nome conste na urna eletrônica. Caso isso não ocorra, Lula terá mantido, sob sua liderança, um capital eleitoral de respeito que pode influenciar os rumos das eleições a poucas semanas da votação, o que gerará incertezas num cenário já incerto.

Há também o grupo que o considera culpado, mas relativize sua prisão exatamente por esta soar injusta, dado o contingente de outros políticos que deveriam ter tomado o mesmo rumo. É uma espécie de racional no clássico estilo “rouba mas faz” que tanto viciou a política brasileira. Esse sentimento pode ser minimizado nos próximos meses se outros políticos também forem condenados, numa demonstração mais ampla de justiça para todos os corruptos pela qual clama a sociedade brasileira.

A Lava Jato não acaba aqui – ou não deveria acabar, se for pelo anseio dos brasileiros. Mesmo com a prisão de Lula, 95% das pessoas acreditam que as investigações devem continuar. Em que pesem alguns arranhões na imagem da operação e da crise de confiança das instituições da Justiça perante a opinião pública, parece ser o único caminho para que o brasileiro se sinta vingado por tantos escândalos e descalabros causados pela corrupção.

Houve, ao longo dos últimos anos, uma espécie de terceirização do combate à corrupção por parte dos brasileiros, transferindo toda a responsabilidade dessa tarefa à Lava Jato, o que em parte colaborou para a desmobilização popular em torno dessa causa.

Numa nação onde 87% da população considera que o país está no rumo errado e que seus políticos são corruptos, é sempre bom lembrar que o próprio brasileiro pode ajudar a corrigir a rota ao fazer justiça com as próprias mãos na urna eletrônica em outubro.

*Danilo Cersosimo é sociólogo pela Universidade de São Paulo e mestre em Estudos Urbanos pela University College London (UCL). Atua há mais de 20 anos em pesquisa social e opinião pública.

**Pesquisa realizada entre os dias 07 e 09 de abril de 2018, através de uma amostra nacional representativa de 1200 entrevistas pessoais em ponto de fluxo, conduzidas por meio de questionário estruturado e com margem de erro de 3 p.p.

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