Lula mantém 'camada antiaderente', diz analista

Desde as primeiras denúncias do Mensalão, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi poupado por imensa parcela da sociedade. Entre 2011 e 2013, novos ataques contra ele foram rapidamente esquecidos, reforçando a tese de que o ex-presidente vive sob uma espessa camada antiaderente, onde acusações desse tipo são incapazes de grudar. A avaliação é do cientista político e professor do Insper Humberto Dantas. "Dessa forma, Lula continua circulando como agente central do PT, disputado cabo eleitoral e destacável estrategista nas ações do governo federal. Parece gozar de imunidade absoluta, uma espécie de passaporte diplomático que lhe serve para viajar livremente pelo mundo das atitudes, discursos e países distantes. E a camada antiaderente é assim: uma rápida passada de bucha e tudo está limpo", afirma o cientista político.

AE, Agência Estado

27 Março 2013 | 19h37

Humberto Dantas cita que Lula foi personagem central do congresso "Novos Desafios da Sociedade", realizado essa semana, e em seu discurso defendeu, entre as grandes metas a serem perseguidas pelo País, a reforma política e o financiamento público de campanha em caráter urgente. O professor do Insper diz que levando em conta a defesa feita pelo ex-presidente petista, o uso de dinheiro privado se transformaria em "crime inafiançável a ser julgado pela mesma justiça que o presidente do PT, Rui Falcão, chamou recentemente de principal grupo de oposição". E questiona se, no campo da política, as empresas deveriam ser proibidas apenas de financiar campanhas, respondendo: "Pois se assim for, é possível entender porque em 2011, ano não eleitoral, o diretório nacional do PT arrecadou regularmente mais de R$ 50 milhões em doações, sendo 96,5% advindos de empresas e mais da metade de empreiteiras, um volume vinte vezes superior ao do PSDB, o segundo colocado."

O cientista político diz também que em outra parte de sua fala, no congresso "Novos Desafios da Sociedade", Lula condenou o que chama de partidos de aluguel, que negociam com o governo seus minutos nos programas eleitorais. "A esse respeito, vale lembrar que os últimos presidentes, inquilinos fiéis dessas organizações, não têm motivos para se queixar", ironiza Dantas. E argumenta que Lula, quando estava no poder, não fez nada para reverter este quadro: "O que Lula teria contra as legendas que atualmente demandam participações mais expressivas no governo de Dilma em troca da habitual tranquilidade do Congresso?" E reitera que "o grande problema de Lula não é o que ele defende como reforma política, mas sim o sentimento de que sua camada antiaderente é tão eficiente que sequer seu discurso é capaz de aderir às suas práticas".

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