'Lula errou ao responder às demandas do PT'

Entrevista com Riordan Roett, brasilianista americano

Denise Chrispim Marin - CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S. Paulo

31 Dezembro 2010 | 23h00

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva errou em sua política externa ao se distanciar da tradição do Itamaraty para responder às demandas do PT, segundo o brasilianista americano Riordan Roett, da Johns Hopkins University. Os casos mais notórios foram o acordo nuclear com o Irã, o envolvimento direto na crise de Honduras e a omissão na questão de direitos humanos em Cuba.

 

Para Roett, Dilma Rousseff não tende a repetir tais equívocos à frente do Palácio do Planalto. "Dilma não é um títere. É uma pessoa muito diferente de Lula. Não acho que ela será tão ativa quanto Lula foi na política externa". O brasilianista chama a atenção para dois sinais relevantes feitos por Dilma em entrevista em dezembro ao Washington Post. Primeiro, ela mencionou sua sensibilidade na área de direitos humanos. Depois, a intenção de relançar as relações Brasil-Estados Unidos. Para um país pacífico que não causa problemas a Washington, como o Brasil, o desafio será captar a atenção da Casa Branca, voltada aos imbróglios no Oriente Médio.

 

Qual será o principal desafio de Dilma Rousseff?

 

Agora, o Brasil tem o petróleo do pré-sal e a tecnologia para explorá-lo e será sede dos jogos de 2014 e 2016. Esse será o desafio real de Dilma. O desafio será não fazer trapalhadas. A Índia fez um trabalho horrível nos Jogos Olímpicos da Comunidade Britânica (2010). Mas os chineses, com as Olimpíadas de 2008, deram uma demonstração de que um BRIC pode organizar eventos mundiais. A partir do dia 2 de janeiro, Dilma terá de organizar a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Terá de construir toda a infraestrutura necessária e de prover segurança. Isso trará progressos lentos, porém, reais para o Rio de Janeiro e reduzirá o Custo Brasil.

 

Luiz Inácio Lula da Silva cometeu erros na política externa?

 

(Errou) Quando respondeu à política externa do PT e manteve-se distante da tradição do Itamaraty. Ou seja, na política para o Irã, Honduras e Cuba.

 

Onde estarão os limites da política externa de Dilma?

 

Não acho que Dilma será ativa na política externa como Lula. Esta é uma década diferente. Dilma estará envolvida na discussão da nova arquitetura financeira mundial. Mas, terá também de lidar seriamente com a valorização do câmbio, a inflação e com 2014 e 2016. Estará absorta em temas domésticos, enquanto o Itamaraty vai gerir a política exterior. O Itamaraty tem a melhor diplomacia da América Latina. Celso Amorim cometeu um grande erro ao se filiar ao PT. Chanceleres não devem fazer isso.

 

O presidente Lula atacou os EUA, em discursos, nos seus oito anos de governo. Como avaliar esse comportamento?

 

Washington não tomou com seriedade o que Lula disse nos últimos meses. Dos discursos anteriores, algumas críticas aos EUA estavam corretas. Quando ele disse que a culpa pela crise econômica era de pessoas loiras e de olhos azuis foi maravilhoso. Todas as outras crises tinham começado em mercados emergentes. A de 2008, não. Dilma nunca dirá algo semelhante.

 

A relação Brasil-EUA não será mais contaminada pelo PT?

 

O Brasil não foi um país cooperativo com os EUA no governo de Lula. Mas, Dilma foi bastante positiva quanto à relação com os EUA. Haverá mais cooperação entre Washington e Brasília. Mas, isso depende mais dos EUA do que do Brasil. Os EUA centraram-se no Iraque, no Afeganistão, no Oriente Médio e na crise econômica nos últimos anos. A secretária de Estado, Hillary Clinton, foi ao Oriente Médio mais vezes que à Europa.

 

O senhor acredita que a relação Brasil-EUA pode recomeçar em 2011?

 

A relação será relançada quando Dilma vier a Washington. A presença da secretária de Estado, Hillary Clinton, na sua posse é algo muito importante e incomum. Hillary entende a importância do Brasil.

 

A estratégia do governo Lula para o Brasil se tornar membro permanente do Conselho de Segurança da ONU foi correta?

 

O candidato lógico da América do Sul é o Brasil. Essa é uma ambição brasileira desde o final da Primeira Guerra Mundial, quando o Brasil pleiteou um papel mais relevante na Liga das Nações. A tradição de Rio Branco, de que o Brasil deve ser um ator importante, é muito forte na política externa e faz parte da história do País. O Brasil participou das negociações do Tratado de Versailles (1919) e lutou ao lado dos EUA na Segunda Guerra. Nenhum outro país latino-americano fez isso. A tática de Lula envolveu a abertura de embaixadas na África, frequentes viagens ao exterior e a convergência com outros pleiteantes - Japão, Alemanha e Índia. Não se questiona o ingresso do Brasil. Pode não acontecer em um ano. Mas acontecerá.

 

Falta a Dilma Rousseff jogo de cintura para fazer coalizões?

 

Falavam o mesmo de Michelle Bachelet. Dilma não teria feito sua carreira na área de Energia se não soubesse construir coalizões. Não era Lula quem administrava o governo, mas a Casa Civil. Ela não é um títere. Quando eleita presidente, mencionou os direitos humanos. Lula não fez nada nessa área. Não acho que ela será tão ativa quanto ele na política externa. O Brasil já se estabeleceu como um ator relevante. Dilma terá um excelente chanceler, Antonio Patriota, que não é ideológico.

 

O Brasil pode se intrometer em qualquer tema internacional?

 

Pode porque tem gente competente para isso no Itamaraty. O Irã foi uma questão de Lula e de Amorim. A partir de 1º de janeiro, ele não será mais o presidente, nem Amorim será mais o chanceler. E Palocci estará de volta ao governo. A política externa de Dilma será pragmática.

 

A cooperação trilateral, que vem ocorrendo no Haiti e em alguns países da África, é o caminho para aproximar Washington de Brasília?

 

Washington reconhece a liderança do Brasil no Haiti e sua presença na África. Nos EUA, as pessoas certas entendem a política externa brasileira, embora às vezes discordem dela. Também discordam da China e do Paquistão. Mas, ninguém precisa do Brasil para guerras.

 

O Brasil pode e deve manter relações profundas com países que não valorizam a democracia e os direitos humanos?

 

Países com importância crescente nas áreas econômica e financeira devem se tornar mais responsáveis na política. Isso vale para o Brasil. Mas o País terá pouca influência nessa agenda. Deveria consolidar sua democracia e trabalhar com poucos países. Os EUA fizeram trapalhadas nesse campo. Não vai dar certo tornar o Iraque e o Afeganistão países democráticos.

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