Lula e o vácuo a ser preenchido

A atual corrida eleitoral tornou-se ainda mais incerta após a condenação unânime do ex-presidente pelo TRF-4

Danilo Cersosimo*, O Estado de S.Paulo

04 Março 2018 | 03h00

A condenação unânime do ex-presidente Lula pelo TRF-4 em janeiro tornou a atual corrida eleitoral ainda mais incerta, seja pela indefinição em relação ao candidato do PT, seja sobre seu poder de transferência de votos para um eventual sucessor.  

O fato é que, às vésperas do julgamento que o condenou, o Barômetro Político Estadão-Ipsos de então mostrava que Lula era menos desaprovado que outros dez nomes relevantes, entre eles potenciais presidenciáveis como Rodrigo Maia, Henrique Meirelles, Geraldo Alckmin, Ciro Gomes, Fernando Haddad, Jair Bolsonaro e João Dória.     

Ao contrário da maioria dos outros avaliados, os indicadores do ex-presidente pouco haviam oscilado nos 12 meses anteriores ao julgamento. A dúvida recaía sobre o possível impacto que uma eventual condenação teria em sua popularidade. Com base nos dados do Barômetro Político Estadão-Ipsos de fevereiro¹ podemos afirmar que, ao menos até este momento, o desgaste para o ex-presidente é diminuto. 

Em fevereiro, sua desaprovação é de 56% (contra 54% em janeiro) e sua aprovação é de 42% (ante 44% no mês anterior) – Lula só fica atrás em aprovação para Luciano Huck, com 56%. No entanto, é importante notar que, mesmo dentro da margem de erro da pesquisa, sua aceitação caiu nos últimos três meses: 45% em dezembro, 44% em janeiro e 42% em fevereiro, quebrando crescente constante iniciada em julho do ano passado, quando pulou de 28% para 45% de aprovação em dezembro.    

Sucessores prováveis do ex-presidente, Jaques Wagner e Fernando Haddad, apresentam altos índices de desconhecimento e desaprovação no Barômetro Político Estadão-Ipsos e reduzida intenção de voto nas pesquisas eleitorais realizadas até aqui. 

Sob o ponto de vista político, Wagner parece ter mais apelo nos redutos petistas e maior capacidade de composição de alianças, mas seu indiciamento por corrupção em inquérito que investiga desvios de dinheiro público em estádio da Copa-2014 pode forçar o PT a mudar os planos – Haddad seria uma aposta visando a necessária reconstrução do partido para o futuro. 

As demais personalidades monitoradas, sejam potenciais candidatos à presidência ou não, continuam apresentando indicadores instáveis e altos índices de reprovação – o cenário permanece tão instável e o vácuo político tão latente que até mesmo o presidente Michel Temer, com apenas 2% de aprovação ao seu governo, decidiu lançar-se candidato.

1: Pesquisa realizada entre os dias 1.º e 16 de fevereiro de 2018, através de uma amostra nacional representativa de 1.200 entrevistas domiciliares conduzidas por meio de questionário estruturado e com margem de erro de 3 p.p.

*Danilo Cersosimo é sociólogo pela Universidade de São Paulo e mestre em Estudos Urbanos pela University College London (UCL). Atua há mais de 20 anos em pesquisa social e opinião pública.

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