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Política

Fernando Haddad

Lula e a nova esquerda pós-materialista

Na festa dos novos progressistas, Lula é o velho de relógio de ouro, balançando o molho de chaves na mão enquanto conta piadas machistas

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Alberto Bombig

30 Março 2016 | 07h34

É inegável a existência de um novo pensamento de esquerda em jovens do mundo inteiro. Trata-se de uma tendência "pós-materialista", como definem alguns cientistas políticos, da qual o petista Fernando Haddad e a ex-ministra Marina Silva (Rede) são hoje os maiores expoentes no Brasil. Em linhas gerais, esse "agrupamento desconexo" deixa um pouco de lado a questão da distribuição de renda e da luta de classes para abrir espaço a temas como a sustentabilidade, a mobilidade urbana, a ética na política, a transparência e o rigor no gasto do dinheiro público. No campo do simbolismo, ganha pontos com esse pessoal quem vive bem e com pouco, como o ex-presidente do Uruguai Pepe Mujica. Ganha pontos quem reafirma no seu estilo de vida valores imateriais e princípios sólidos, incorruptíveis. 

Essa nova esquerda tem como alvos principais de seus protestos os grandes conglomerados do capitalismo e os preconceitos históricos contra as mulheres, os gays e todos os demais grupos que antigamente a esquerda tradicional chamava de "minorias". E como fica o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nesse cenário da nova esquerda? A julgar pelo que conhecemos recentemente via Lava Jato fica mal, muito mal.

Mesmo deixando de lado o aspecto jurídico das implicações de Lula na Lava Jato (não vou discutir aqui se ele é culpado ou vítima), é inegável que as investigações revelaram a grande proximidade de Lula com o conglomerado de empreiteiras do Brasil, aquele mesmo que os petistas condenavam antes de chegar ao poder e ao qual atribuíam parcela considerável de culpa pelo nosso atraso político e cultural. Lula foi visitar um apartamento acompanhado de Léo Pinheiro, então executivo-chefe da OAS. É pouco? Em depoimento à Polícia Federal, Lula disse que o tríplex em questão, localizado na orla do Guarujá (SP), era padrão "Minha Casa, Minha Vida". No mínimo, foi um desrespeito aos milhões de trabalhadores que lutam para ter um quarto-e-sala próprio neste País de injustiças (Alô, Guilherme Boulos). 

Na melhor hipótese para Lula, ele frequentou um sítio todo reformado pela Odebrecht e pela própria OAS durante longos cinco anos. Nesse período, em nenhum momento passou pela cabeça dele que curtir aquele lindo sítio em Atibaia, área valorizada do interior de SP, era um privilégio ao qual pouquíssimos trabalhadores brasileiros podem ter acesso? Em nenhum momento ele comparou o sítio de Atibaia com o pedacinho de terra em que o amigo Pepe Mujica vive no Uruguai, sem caseiro ou piscina? Em nenhum momento Lula achou que o bem comum e o interesse da maioria tinham sido desprezados quando uma operadora de telefonia instalou do lado do sitio uma antena de celular para usufruto do grupo restrito de amigos e familiares dele? 

Novamente deixando de lado o aspecto jurídico, as conversas de Lula ao telefone, grampeadas com autorização do juiz Sérgio Moro, revelam preconceitos clássicos contra as mulheres (não vou reproduzir aqui para não dar vazão ao machismo) e reforçam a visão do bem público como algo reservado a ele e ao PT. Em décadas passadas, Lula já havia feito brincadeiras idiotas com gays, como no famoso episódio de Pelotas (RS) - quem não conhece é só procurar no YouTube. Quando o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), diz em uma dessas conversas que o sítio de Atibaia é "coisa de pobre", Lula se limita a gargalhar, numa conversa preconceituosa de boteco que faria corar os latifundiários da minha terra. Lula manda autoridades enfiarem naquele lugar investigações, arquivos e argumentos. Trata o delegado que o interroga, um funcionário público como ele próprio já foi um dia, como um ser desprovido de honra e competência. Só as patroas más das piores novelas de TV conseguem algo parecido.

O desfecho da atual crise ainda é imprevisível nas esferas política e jurídica. Porém, já está na hora de analisarmos o aspecto simbólico de tudo o que nos foi apresentado pela investigação, goste-se dela ou não. O simbolismo dos gestos, amizades e falas de Lula nos revela um político em descompasso com os novos anseios da juventude e dos novos tempos. E não adianta, em contraponto, falar de União Nacional dos Estudantes (UNE) ou de outras entidades mantidas hoje com dinheiro público. Estou falando de quem tem hoje entre 16 e 25 anos, que mal sabe o que foi Plano Real ou Carta aos Brasileiros se identifica com o pensamento dito de esquerda ou progressista sem fazer parte de grêmios ou entidades.

No mundo da esquerda pós-materialista, Lula parece ser um acumulador contumaz, um cara com jóias, badulaques, relógio de ouro e pochete, balançando o molho de chaves (com a dos carros, do sítio e do tríplex) na mão, contando piadas machistas numa festa de hippies. É cedo para dizer se Lula é culpado ou inocente. Mas já é tarde para dizer que Lula se tornou um político velho.

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