Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

Lula diz ser 'inaceitável' complexo petroquímico investigado estar parado

Ex-presidente discursa em frente ao Comperj, cujas obras renderam propinas ao PT, segundo delatores da Odebrecht

Roberta Jansen e Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

07 Dezembro 2017 | 12h55

RIO - Alvo de investigação pela força-tarefa da Operação Lava Jato, o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) foi defendido nesta quinta-feira, 7, pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante discurso na porta da empresa, em Itaboraí. Tratou-se da primeira atividade de seu terceiro dia em caravana no Estado. “O Comperj está fechado, mas eu teimei de vir aqui porque queria fazer uma foto. É inaceitável que um País em meio a essa crise econômica e esse desemprego deixe parada uma obra dessa magnitude por irresponsabilidade de um governo."

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Lula estava acompanhado do senador Lindbergh Farias (PT-RJ) e da deputada Benedita da Silva (PT-RJ). Eles não tiveram autorização para entrar no Comperj, que estava cercado por policiais.

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“Eu vim até aqui para mostrar que isso não é correto", discursou Lula, apontando para as instalações fechadas. “Se estivesse produzindo, quanto imposto estaria sendo gerado, quantos empregos? Parada, ela só dá prejuízo e desespero. O Comperj chegou a gerar 20 mil empregos."

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Lula voltou a criticar a Lava Jato, dizendo que a operação contribui para a crise no Brasil e no Rio. “O País só fala em corte de gastos e corrupção”, afirmou. “Quem roubou tem que estar preso, mas as empresas não podem fechar."

O ex-presidente afirmou que a Petrobrás já perdeu 197 mil postos de trabalho e a indústria naval outros 50 mil. “Essa gente toda não roubou, essa gente foi roubada. O País só fala em corte de gastos e corrupção”, afirmou. “Quem roubou tem que estar preso, mas as empresas não podem fechar", disse.

LAVA JATO

Em Duque de Caxias, Lula afirmou que não é contra a Operação Lava Jato - da qual é réu -, mas sim crítico das delações premiadas.

"Não pensem que sou contra a Lava Jato. Prender ladrão é uma necessidade nesse País. Eles prenderam alguns e soltaram alguns. Todo cara que faz delação é porque roubou. Faz para devolver ao Ministério Público apenas uma pequena parcela do roubo e viver rindo às custas do que roubou", disse, referindo-se a ex-executivos da Transpetro e da Petrobrás. "Vamos ver como estão vivendo o Sérgio Machado (ex-presidente da Transpetro), o Paulo Roberto Costa (ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás)?"

Ele disse também que armar a população e reforçar o poderio bélico das polícias não vão reduzir a violência - alusão indireta ao deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ), virtual candidato à Presidência da República em 2018 que aparece em segundo lugar nas pesquisas de opinião.

"A solução deste País não é arma, é trabalho, salário, educação. Se um menino de 17 ou 18 anos tiver escola e trabalho e puder comprar um celular, um tênis, uma camiseta da hora, ele não vai roubar", pontuou, em discurso de 25 minutos para centenas de pessoas.

VITÓRIA

Lula disse que não é candidato oficialmente, mas afirmou que vai ganhar se concorrer ao Planalto. "Eu não precisava fazer o que estou fazendo. Tenho consciência dos mandatos que fiz", declarou. "Se eles não têm competência para consertar esse país, eu tenho."

Ao falar do Rio de Janeiro, que vive crise fiscal, com atraso salariais de servidores, há dois anos, desafiou: "Só existe uma possibilidade para o Rio, é ter um presidente comprometido com o Rio. É por essas razões que resolvi voltar."

O palanque de Lula foi montado na Praça do Relógio, no centro na cidade, uma área de comércio popular. A praça começou a encher por volta das 11 horas e Lula falou ao público a partir das 14h40, duas horas depois do horário inicialmente anunciado.

O aposentado Francisco Caetano, de 66 anos, esperou mais de três horas sob mormaço forte. "Como não vou esperar pelo único presidente que governou para os pobres? Por que a Lavo Jato quer prender o Lula e o (presidente Michel) Temer fica solto?", disse. O músico Alex Tavares, de 33 anos, acha que o povo irá para as ruas numa eventual ordem de prisão. "Lula protegeu o povo, o povo protege Lula", justificou.

Antes de Lula chegar, algumas pessoas passaram pela área junto ao palco e gritaram "safado", "ladrão" e "corrupto", mas eram minoria. Quando acontecia, o locutor dizia que os apoiadores não aceitariam provocações e pedia respeito aos opositores.

O ex-presidente está em caravana pelo Espírito Santo e o Rio desde segunda-feira. Conclui a viagem na sexta-feira, 8, na capital do Estado. Ele fez outras caravanas em 2017, no Nordeste e em Minas Gerais.

O processo a que Lula responde no caso do triplex no Guarujá (SP) está no Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4) e o julgamento deverá sair antes do início da campanha presidencial, possivelmente ainda no primeiro semestre de 2018. Se o TRF-4 confirmar a decisão da primeira instância, ele será barrado pela Lei da Ficha Limpa - ficará inelegível por sete anos.

Líder de todas as pesquisas de intenção de voto para presidente, Lula foi condenado em julho pelo juiz federal Sérgio Moro a 9 anos e 6 meses de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro. O juiz entendeu que ele recebeu o triplex como propina da construtora OAS em troca de contratos da empresa com a Petrobrás. 

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