Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Lula diz que vai 'sobreviver a pancadaria' e que adversários terão de 'aguentar' o PT

Em reunião do partido, ex-presidente pede apoio para Dilma sair da crise política, ironiza investigações e insinua que pode sair candidato em 2018

Vera Rosa e Ricardo Galhardo, O Estado de S.Paulo

29 Outubro 2015 | 15h32

Brasília - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta quinta-feira, 29, ao abrir a reunião do Diretório Nacional do PT, que a situação da presidente Dilma Rousseff é “muito delicada” e pediu ajuda ao partido para sair da crise política e evitar o impeachment, mas ironizou as investigações do Ministério Público e da Polícia Federal que atingem sua família. Lula afirmou que a oposição terá de “aguentar” sua presença na cena política, pois vai "sobreviver à pancadaria", e insinuou que, se tudo correr como planejado, será novamente candidato à Presidência, em 2018.

“Eu não sei quanto tempo eu tenho de vida, mas podem ter certeza de que nossos adversários vão ter de aguentar a gente”, desafiou Lula, que em 2011 enfrentou um câncer de laringe. “Quem quiser sair do PT, que saia. Esse partido tem porta aberta para entrar e para sair. Agora, não tem outro jeito: em época de dificuldade econômica, a gente tem de ir para rua. A única coisa que não vale é se esconder.”

Diante de denúncias de corrupção envolvendo até mesmo sua família, o ex-presidente disse que tudo não passa de uma “armação” para atingir o PT e o governo Dilma. “Se o objetivo é truncar qualquer perspectiva de futuro, vão ser três anos de muita pancadaria”, previu ele. “E podem estar certos: eu vou sobreviver. Não sei se eles sobreviverão”.

A uma plateia formada por dirigentes do PT, Lula foi muito aplaudido ao afirmar que Dilma não está governando por causa da crise e da sucessão de denúncias, que começaram com a Operação Lava Jato, da Polícia Federal. Na última segunda-feira, a PF também comandou uma ação de busca e apreensão, em São Paulo, na empresa de Luís Cláudio Lula da Silva, filho mais novo do ex-presidente, no âmbito da Operação Zelotes, que apura a venda de Medidas Provisórias para beneficiar o setor automobilístico.

“É tudo muito incerto. Tem 19 pedidos de impeachment. Tem denúncia contra o presidente da Câmara, denúncia contra o presidente do Senado, denúncia contra o filho do Lula, denúncia contra o Lula”, comentou o ex-presidente, numa referência a Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e a Renan Calheiros (PMDB-AL). “Eu tenho mais três filhos que não foram denunciados e sete netos. Porra, não vai ter fim nunca?”, perguntou, ao lembrar que uma de suas quatro noras foi acusada de receber R$ 2 milhões, para quitar um imóvel, na delação premiada feita pelo lobista Fernando Baiano.

Lula fez piada com a investigação, provocando risos na plateia. “Me criaram um problema desgraçado. Agora querem saber: quem está rico aqui na família? Daqui a pouco uma (nora) vai começar a abrir processo contra a outra”, ironizou.

Ao lembrar que Cunha tem força na Câmara e controla um grupo de parlamentares, Lula pediu aos líderes do PT que conversem com ele. Alegou que não adianta o PT pensar primeiro em derrubar o deputado, depois em derrubar a tese do impeachment e depois, “se der certo”, ajudar Dilma a governar. “O tempo urge”, insistiu Lula. “

Apesar de fazer críticas a Cunha, a cúpula do PT deve aprovar nesta quinta-feira uma resolução política que, na prática, dá mais tempo ao deputado para se defender no Conselho de Ética. Cunha é acusado de manter contas secretas na Suíça com dinheiro desviado da Petrobrás. Cabe a ele decidir se dá ou não sequência ao processo de impeachment contra Dilma. Está sobre sua mesa, agora, o pedido de afastamento da presidente apresentado pelos juristas Hélio Bicudo, Miguel Reale Jr. e Janaína Paschoal.

Na contramão de comentários feitos anteriormente a portas fechadas, quando disse que o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, tinha prazo de validade vencido, Lula defendeu o comandante da economia e afirmou que “não dá” para ficar mais seis meses discutindo o ajuste fiscal.

“É impossível governar o País nessa situação. Estamos fazendo exatamente o que a oposição quer: não governar”, insistiu ele. Ao cobrar dos petistas que saiam às ruas para defender Dilma e o legado do PT, Lula disse que o PT, agora, virou o “sapinho feio” da política.

“Não esperem benevolência, não esperem caridade. É luta. Não digo de guerra, porque somos de paz. Mas, se tivesse pelourinho, eu não teria mais pele. Pensei em dizer que tenho casco de tartaruga, mas aí soube que tem uma espécie de águia que joga a tartaruga lá de cima para quebrar o casco dela”, afirmou o ex-presidente. A plateia cantou “Parabéns” pelos 70 anos de Lula, completados na terça-feira.

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