Lula diz que Dilma terá de contigenciar caso não haja cortes no Orçamento

Presidente afirmou que haverá um choque entre deputados que pedem mais verbas e necessidade de enxugamento nos gastos

Carmen Pompeu, da Agência Estado,

14 Dezembro 2010 | 15h41

SÃO JOSÉ DE PIRANHAS, Paraíba - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta terça-feira, 14, na Paraíba, que se não houver corte no Orçamento para 2011, como recomendou o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, a presidenta eleita, Dilma Roussef, vai acabar tendo que contigenciar.

 

"Toda vez que o Orçamento vai para o Congresso Nacional, normalmente, os deputados querem mais verbas do que o governo previu. Muitas vezes, nós atendemos. Mas, como na realidade a prática é diferente da teoria, quando chegar um determinado mês do ano, a presidenta Dilma vai ter que fazer corte do Orçamento. Vai ter que contigenciar. Se não for real o aprovado com o arrecadado, vai ter que contigenciar", disse Lula. Ele visitou o canteiro de obras da Transposição do Rio São Francisco, na Serra do Braga, em São José de Piranhas, na divisa entre Ceará e Paraíba.

 

Apesar do ministro Paulo Bernardo ter recomendado corte de R$ 8 bilhões na proposta do Orçamento de 2011, o relator na Câmara, deputado Bruno Araújo (PSDB-PE), conseguiu aprovar na noite desta segunda-feira aumento de R$ 4,713 bilhões na previsão de receitas, na Comissão Mista do Orçamento.

 

Essa é a segunda atualização feita pelo deputado. Na primeira, divulgada em novembro, ele havia ampliado as receitas em R$ 17,7 bilhões. Com isso, o Congresso terá R$ 22,4 bilhões a mais para determinar gastos do que previa a equipe econômica, inflando as pressões por novas despesas e jogando para o governo a responsabilidade de fazer cortes.

 

Para ampliar em R$ 4,713 bilhões, Araújo prevê recebimento adicional de R$ 1,1 bilhão referente à concessão de exploração de petróleo pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) - não considera o pré-sal. Além disso, ele reestimou a previsão de royalties em R$ 1,236 bilhão e dos recursos oriundos de venda de ativos da União em R$ 2,2 bilhões. O relator também considerou a arrecadação extra de R$ 850 milhões de Contribuição para Financiamento da Seguridade Social (Cofins). Por outro lado, considera ainda a perda de R$ 672,7 milhões por conta da prorrogação de pacotes de incentivo à construção civil.

 

Transição

 

Com relação à composição do ministério do novo governo, Lula disse que ela terá a cara da Dilma e que a presidenta terá facilidade em governar o país porque o projeto tocado por ele até agora tem Dilma como principal executora. "Não é projeto meu. É projeto dela. Dilma terá muita facilidade. Outro dia, vi um jornalista dizer: 'Ah, mas a Dilma está colocando muita gente do governo do Lula, Não era do governo do Lula. Era do governo dela'. Eu digo sempre o seguinte: A Dilma se reuniu mais com o Guido Mantega do que eu; ela se reuniu mais com Paulo Bernardo do que eu; se reuniu mais com a Miriam Belchior do que eu. Porque, na Casa Civil, os projetos se reuniam três ou quatro vezes antes de chegar na minha mão. Ela escolheu a turma dela".

 

Mulher manda

 

Perguntado se seria mais fácil mandar em mulher, o presidente Lula brincou: "Você sabe pela sua. Esse negócio de que mandar em mulher é fácil, cada um tem a sua experiência dentro de casa. A gente canta de galo na rua. Mas em casa quem manda é a mulher. E se vacilar, manda na rua também."

 

Em seguida emendou: "Eu fico muito orgulhoso que depois de eleger um metalúrgico o povo brasileiro teve a coragem de eleger uma mulher. É o máximo. Se o Obama conhecesse o povo brasileiro, ele diria que o Lula não é o cara coisa nenhuma. Quem é o cara são os 190 milhões de homens e mulheres que vivem nesse país".

 

Lula disse que ligou cedo para Dilma para cumprimentá-la pelo aniversário. Mas o presente afirmou que só vai pensar quando os dois voltarem amanhã para Brasília. "Já liguei. Ela está no Rio Grande do Sul. Volta para Brasília amanhã. Eu vou pensar qual presente eu vou dar para ela", comentou.

 

Despedida

 

Sobre sua saída do Planalto, ele disse que se sente feliz e gratificado. E fez elogios aos jornalistas de uma forma geral: "Confesso que estou extremamente feliz e gratificado. Primeiro, pelo carinho de vocês. Não sei quantos presidentes da República tiveram o prazer de terminar o mandato com uma relação carinhosa como a que vocês têm comigo e eu tenho com vocês".

 

Momentos antes, os jornalistas ameaçaram deixar o evento porque foram colocados distantes ao local onde Lula estava reunido com prefeitos e lideranças locais. Precisou o próprio Lula autorizar a aproximação para que o impasse com os seguranças fosse resolvido.

 

O presidente tentou amenizar o mal estar. Argumentou que não estava previsto nenhum discurso. "Mas quando você bota um microfone perto de um monte de nordestino junto ou tem um em repente ou em discurso", afirmou. E teve os dois: repente e discurso.

 

Descontração

 

Sempre descontraído, o presidente "brincou" de ser animador de auditório. Cedeu o microfone a alguns populares como o repentista Ribamar que arriscou uns versos ironizando o bispo da Paraíba que fez greve de fome contra a Transposição do Rio SÃo Francisco.

 

Na saída deu um abraço forte ao demonstrar ter reconhecido Perpétua Vieira Lins, de 67 anos, que disse que vendia lanches na porta da metalúrgica onde Lula trabalhou, em Santo André (SP), há mais de 30 anos.

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