Lula diz que apoiará candidatura de Dilma em 2014

Durante encontro com jornalistas, presidente avaliou que o momento em que ocorreu o acidente com o avião da TAM em Congonhas foi mais difícil de ser superado do que a crise do mensalão

Leonencio Nossa, Agência Estado

27 Dezembro 2010 | 11h17

Apesar de afirmar que ainda é cedo para discutir sobre 2014, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta manhã que trabalha "com a ideia fixa de que a companheira Dilma (Rousseff) será outra vez candidata à Presidência da República", em 2014. "É justo, legítimo que o governante possa disputar um segundo mandato. A Dilma será minha candidata em 2014", disse Lula, ao ser questionado por jornalistas sobre se seria candidato nas próximas eleições presidenciais, durante café da manhã com repórteres que fazem a cobertura do Palácio do Planalto.

 

Segundo Lula, só existe uma hipótese na qual Dilma não seria candidata à reeleição: "ela não querer ser". "Para mim, é líquido e certo que ela vai querer ser candidata", completou. O presidente ainda disse que, agora, ele pretende descansar. "Estou querendo menos trabalho e mais descanso".

 

Liberdade de imprensa

 

O presidente deixou escapar que ainda sente mágoas da oposição e da imprensa. Ele disse que vai precisar de tempo para escrever suas memórias. "Você não está preparado para fazer um livro no dia seguinte. Você está com mágoa. É preciso dar um tempo. Imagina se um marido e uma mulher no dia seguinte à separação resolvem escrever um livro? Vai ser um desastre. Você tem que deixar o ódio se assentar", disse.

 

Embora tenha usado palavras fortes, Lula fez esses comentários com o semblante tranquilo. Ele observou que Juscelino Kubitschek (1956-1960) foi bastante criticado. "Ele todo o santo dia era chamado de corrupto e ladrão. Depois de um tempo, reconheceram a importância dele".

 

Lula disse que pretende trabalhar na construção de um memorial que permita a todas as pessoas fazerem uma análise própria do que representaram seus oito anos de governo. "Eu pretendo fazer isso devagar. Nada apressado".

 

O petista avaliou que o momento em que ocorreu o acidente com o avião da TAM em Congonhas, em 2007, foi mais difícil de ser superado do que a crise do mensalão em 2005. Lula não se referia ao drama das famílias, mas às críticas recebidas pelo governo. Ele reclamou que o governo foi condenado à forca e à prisão perpétua e até hoje não recebeu desculpas de jornais e opositores. "Foi o momento mais difícil de peso nas costas. Mas na vida da gente não acontecem só coisas boas. Se tivesse de não lembrar de algo, foi esse dia", disse.

 

"Do ponto de vista pessoal, (o acidente da TAM) foi maior. O outro (mensalão) estava no âmbito da política. Eu não esqueço nunca do editorial jogando cadáveres nas costas do governo. Se alguém daqui a cem anos escrever um livro sobre acidente de avião, vão achar que foi culpa do governo Lula", disse. O presidente também não comentou sobre a dimensão da pista do aeroporto de Congonhas que, segundo analistas, caso fosse maior, poderia ter evitado a tragédia.

 

Pela primeira vez, Lula fez uma conexão entre sua trajetória política com o movimento de resistência estudantil à época ditadura. "O Lula não surgiu do nada. Ele é o resultado de um processo que começou com a revolução dos estudantes nos anos 60, depois passou pela revolução dos sindicalistas nos anos 70 e até a teologia da libertação da igreja Católica", disse. "Quando analisarem a história, acho que os mais cuidadosos vão perceber que sou resultado de uma sociedade em efervescência". "Eu seria muito presunçoso se dissesse como gostaria de ser lembrado. Só sei que mudei a relação do Estado com a sociedade, com os movimentos sociais", completou.

 

O presidente defendeu uma regulação dos veículos de comunicação. Ele disse que a sua proposta não é uma forma de controle. "Acho que é necessária (a regulação). Espero que seja feito um debate. Quando você promete um debate, não está apoiando o que diz a extrema direita nem o que diz a extrema esquerda, mas um consenso", disse. "Eu não defendo o controle da mídia, mas a responsabilidade. A mídia tem de parar de achar que não pode ser criticada", disse.

 

Lula disse que o Brasil é o país de maior liberdade de imprensa. "No Brasil, exercemos a liberdade de imprensa mais que em qualquer país", completou. Ele também reclamou da cobertura da imprensa. "Esses dias li uma matéria em que a grande derrotada nas eleições foi a Dilma (Rousseff, presidente eleita) e os vitoriosos foram o (José) Serra e a Marina (Silva)", se queixou.

 

FHC

 

Durante o encontro, Lula não abandonou o hábito de dar alfinetadas no antecessor Fernando Henrique Cardoso. Questionado sobre se ele iria se reconciliar com o tucano, o presidente respondeu que é preciso analisar os números entre os dois governos. "Acho que é possível (a reconciliação). Sou um homem que não leva para casa as divergências. A relação de amizade continua a mesma. Mas é preciso entender que os tucanos são os principais adversários do governo e é normal que haja acirramento na relação". "E sempre tem a chatice dos números. Cada um que analise do jeito que quiser", disse de forma irônica.

 

Ele lembrou que, nas eleições de 1978, apoiou a candidatura de Fernando Henrique para o Senado por São Paulo. "Eu que o procurei para ser candidato ao Senado", disse. Lula ressaltou que é possível eles voltarem ser amigos. "Espero que a recíproca seja verdadeira", completou.

 

Economia

 

Lula garantiu que não dará palpite sobre a economia brasileira no próximo ano. Questionado sobre sua avaliação quanto ao controle da inflação no Brasil e sobre decisões recentes da China, que anunciou elevação de juros, pela segunda vez em dois meses, para combater a inflação, o presidente Lula comentou: "Está dentro da afirmação de que não posso dar palpite; 5,3 (previsão da inflação no Brasil) é um índice dentro da meta. A inflação me preocupa todo dia, toda hora porque ela corrói o poder aquisitivo do salário. A previsão de 2011 está dentro da meta".

 

Lula ainda completou dizendo que não vai se manifestar sobre aumento de juros, reafirmando que é a presidente eleita, Dilma Rousseff, quem terá que decidir sobre o assunto a partir de agora. "Em janeiro, o Copom vai se reunir e o presidente do Banco Central será outro. Eu não vou falar se é hora de subir ou não (os juros). A última vez que o Copom se reuniu no meu governo não aumentou (os juros)". Para o presidente, "a dosagem do remédio será dada pela autoridade monetária". De acordo com Lula, "a presidente Dilma conhece como ninguém (essa área) e o Brasil está seguro para enfrentar adversidades".

 

Sobre o salário mínimo, que ficou em R$ 540,00 no Orçamento de 2011 de acordo com recomendação do governo, Lula disse: "Se tiver de fazer alguma mudança, a presidente Dilma fará em janeiro".

 

Ao analisar a crise financeira internacional, o presidente destacou que o seu governo tomou medidas para aumentar o crédito no mercado, liberando o compulsório e permitindo mais financiamento de veículos. Ele observou que houve uma "intervenção forte" no Banco do Brasil e na Caixa para agilizar medidas para combater a crise. "Nós aqui levamos dez dias para resolver o problema de financiamento de veículos. O Obama levou sete meses para resolver o problema da General Motors", disse.

 

Lula elogiou o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, pelas medidas tomadas: "Com eles, tivemos agilidade em resolver o problema".

 

Descanso

 

O presidente ainda disse que, agora, ele pretende descansar. "Estou querendo menos trabalho e mais descanso". O encontro com os jornalistas começou às 9h30. Lula afirmou que não sentirá falta da piscina do Palácio da Alvorada e dos helicópteros da Presidência da República. Um repórter lembrou um comentário do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que no final de 2002 afirmou que ia sentir saudades da piscina do palácio. "Usei pouco a piscina e tenho medo de helicóptero. Não vou sentir falta", disse Lula.

 

Na conversa com os jornalistas, Lula disse que o "seu apartamentosinho" de São Bernardo do Campo é mais aconchegante que os palácios de Brasília. Depois, o presidente disse que iria sentir falta das relações de amizade que fez no governo e, especialmente, durante as viagens e ainda afagou os jornalistas: "Por incrível que pareça, vou sentir falta de vocês. É saudade"

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