Lula define como 'tentativa de golpe' crise de 2005

Presidente disse que só não foi afastado do poder porque a oposição tinha medo do que poderia acontecer, pela sua relação com o povo

Tânia Monteiro, Leonêncio Nossa e Eduardo Rodrigues, Agência Estado

02 Dezembro 2010 | 12h58

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou como tentativa de "golpe" a crise política de 2005, que ficou conhecida como o "escândalo do mensalão". No discurso da última reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social no seu governo, Lula agradeceu a todos o apoio naquele momento de turbulência política. "No auge da crise de 2005, eu nunca tinha falado isso, mas naquela tentativa de golpe, no Brasil, vocês permaneceram no Conselho. Vocês não misturaram o trabalho que estavam fazendo para o Brasil", disse.

 

Lula voltou ao assunto durante entrevista às rádios comunitárias. Ele disse que só não foi afastado do poder porque a oposição tinha medo do que poderia acontecer, pela sua relação com o povo. "Tentaram fazer comigo o que vocês viram em 2005 e só não foram mais adiante porque eles tinham medo da minha relação com a sociedade brasileira e eles não sabiam o que poderia acontecer neste País", disse. Ao ser indagado se acreditava na possibilidade de ocorrer uma reação conservadora ao governo Dilma Rousseff, que poderia se assemelhar ao golpe de 1964, Lula disse que espera que a oposição esteja mais civilizada "e que permita que Dilma possa governar este País com a força no voto popular que ela teve, com respeito às instituições democráticas".

 

Governo Dilma

 

Depois de reiterar que a Dilma fará mais e melhor em seu governo, Lula recomendou que ela "pise mais no acelerador". Ele tem repetido em seus discursos que o carro que Dilma vai dirigir está a 120 km/h e que caberá a ela decidir se deve acelerar, manter o ritmo ou pisar no freio. Hoje, no entanto, disse que Dilma tem de acelerar. "Ela só tem de pisar um pouquinho mais no acelerador e segurar bem no volante", declarou Lula. Ele também comemorou a nova correlação de forças do governo no Congresso. "Melhor do que no governo passado", referindo-se ao próprio governo. Segundo Lula, os novos senadores, têm "cabeças mais arejadas" e isso facilitará o governo Dilma.

 

Lula assegurou também que os avanços na área social vão prosseguir. "A Dilma não veio de onde eu vim mas ela vai para onde eu vou, ela vai fazer muita coisa. Ela tem cabeça boa, arejada e vai fazer coisas extraordinárias". Ele voltou a afirmar que, quando deixar o governo, vai se dedicar ao seu instituto, vai viajar muito dentro e fora do País e vai ajudar os países pobres. Ele chegou a brincar que, como foi oposição a vida inteira, terá de "tomar cuidado" para não falar mal do novo governo. E completou dizendo que quando sair quer ser "um bom ex-presidente, sem atrapalhar quem estiver governando este País".

 

Lula disse que precisa "desencarnar" da Presidência da República e que, fora dela, terá mais liberdade de se pronunciar. "Eu, sem ser presidente da República, vou poder fazer discurso que eu não faria como presidente da República. Portanto... é verdade, como presidente eu sou uma figura... eu não sou o Lula eu sou uma instituição. Eu tenho que me comportar, mas como cidadão brasileiro, eu tenho muito mais liberdade para falar as coisas, para dizer as coisas, para cobrar as coisas. Vamos estar juntos aí. O dado concreto é o seguinte: não pensem que vão se livrar de mim, porque vamos estar juntos em algum lugar desse País".

 

Avanços econômicos

 

Lula destacou também o bom momento dos bancos oficiais. "A Caixa (Caixa Econômica Federal) estava para quebrar e o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Nacional) não era um banco de desenvolvimento, nem social. Vocês ajudaram a fazer este País o que é hoje, disse o presidente, dirigindo-se ao conselho integrado por empresários, sindicalistas e representantes da sociedade civil.

 

Ao comemorar os avanços que houve em seu governo, citando que somente este ano, até 30 de outubro foram criados dois milhões de postos de trabalho, o presidente questionou: "Como é que alguém pode tentar criar embaraço para que isso não continue? Obviamente que adversário é sempre adversário, oposição é sempre oposição. Mas eu acho que democracia é sempre democracia e eu acho que vai prevalecer o bom senso neste país e nós vamos conseguir avançar e avançar muito para consolidar a democracia no País".

 

Atualizado às 15h41

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