Obra de FHC narra tentativa de Maluf de 'comprar' deputado da base aliada

Ex-prefeito de São Paulo teria oferecido US$ 1 milhão a Roberto Brant para que o então parlamentar votasse contra reeleição

Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

21 Outubro 2015 | 02h01

Atualizado às 14h45 para correção de informação - Roberto Brant era do PFL, e não do PSDB

Em seus registros gravados nos primeiros dois primeiros anos no Palácio do Planalto, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso relata que o então deputado Roberto Brant (MG), membro da comissão da Câmara que analisava a proposta de emenda constitucional da reeleição, foi procurado pelo ex-prefeito de São Paulo Paulo Maluf, que teria lhe oferecido dinheiro para votar contra a proposta.

"Talvez o mais significativo de tudo que aconteceu hoje e que ainda não registrei foi o telefonema que recebi do Luís Eduardo (Magalhães, do extinto PFL baiano, presidente da Câmara em 1996 que morreu dois anos depois). Ele soube que o Roberto Brant, amigo nosso, deputado do PSDB, membro da comissão que vai votar a reeleição, fora procurado primeiro pelo Maluf", relatou FHC em 3 de dezembro de 1996. Na verdade, o deputado era do PFL, e não do PSDB, como registrou o ex-presidente. "Ele (Brant) se esquivou, mas depois foi procurado por um amigo de Maluf que é empresário. Esse empresário, em nome do Maluf, ofereceu a ele 1 milhão de dólares para votar a favor do Maluf, ou seja, contra a reeleição na comissão especial."

Ainda segundo FHC, o emissário teria oferecido US$ 100 mil para ele apenas não comparecer à votação. "Amanhã à noite o (deputado) Luís Eduardo (Magalhães) irá a São Paulo dizer ao Maluf, na lata, que esses métodos são ultrapassados e que assim não dá".

A emenda constitucional da reeleição foi aprovada em 1997. Pouco tempo depois, deputados federais disseram que receberam dinheiro para votar a favor da medida.

'Contaminação'. A assessoria de imprensa do hoje deputado federal Paulo Maluf classificou como "uma mentira" a recordação de FHC. "Contaram para ele uma deslavada mentira e eles saiu espalhando como se fosse verdade. As memórias do FHC devem estar contaminadas e deveriam ter sido escritas quando ele era mais moço", afirma Adilson Laranjeira, assessor do deputado.

Em janeiro de 1996, no começo do seu segundo ano de mandato, FHC já vislumbrava em Maluf um dos obstáculos ao seu projeto de reeleição. "Uma questão mais difícil é a da reeleição. Por quê? Por causa do Maluf." Prefeito de São Paulo entre 1993 e 1996, Maluf planejava ser candidato à Presidência da República em 1998.

Crises tucanas. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso também contou em seu livro de memórias do poder como foi complicada a relação com seu partido, o PSDB, que segundo ele reclamava muito de falta de atenção, mas não assumia bandeiras de seu governo.

"O PSDB se queixa do de sempre, falta de atenção (...). O PSDB tem que assumir a bandeira do governo, e não tem assumido", disse o presidente depois de um encontro com o então dirigente do partido, Teotônio Vilela, o secretário-geral, Arthur Virgílio e o líder do PSDB na Câmara, José Aníbal.

Em sua avaliação sobre o período, FHC diz que "a cada quatro ou cinco meses" havia uma "pequena crise" com os tucanos, que temiam perder espaço para o PMDB e o PFL. "É o contrário do que vocês do PSDB estão pensando. O PFL é que está em minhas mãos, e não nós que estamos nas mãos deles", disse o então presidente aos tucanos. 

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