Joesley aconselha interlocutor que, se há 'batom na cueca', é melhor delatar

Áudio da conversa de empresário da J&F com deputado mineiro, segundo revista 'Veja', está entre material entregue à Procuradoria após firmada delação

O Estado de S.Paulo

29 Setembro 2017 | 11h07

Correções: 29/09/2017 | 18h16

Em conversa gravada com um interlocutor que responde por "Gabriel", Joesley Batista diz ter aconselhado um amigo sobre o que levar em consideração na hora de decidir por um acordo de delação premiada. Se tinha "batom na cueca", era melhor delatar, teria dito o empresário, segundo o áudio obtido pela revista Veja.

"Ô, meu, é a coisa mais simples do mundo, porque se você tem problema e o problema é, como se diz, batom na cueca, ô, meu, corre lá e faz a porra dessa delação", disse Joesley ao seu interlocutor, que de acordo com a publicação seria o deputado federal Gabriel Guimarães (PT-MG).

Na conversa, Joesley também detalha como atuou para aliciar o procurador Ângelo Goulart Villela e sua interlocução com o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), a quem detalhava suas negociações com o MPF sobre o acordo de leniência da J&F.

Em outra gravação, desta vez com o executivo Ricardo Saud, o diretor Francisco Assis e Silva e a advogada da JBS, Fernanda Tórtima, Joesley relata que pretendia deixar o Brasil. "Ainda vou pra Nova York, vou amanhecer em Nova York, se Deus quiser. Eu vou ficar aqui, Fernanda? Cê tá louca? Soltar uma bomba dessa aí e ficar aqui fazendo o quê?"

A advogada considera que a PGR não perderia a oportunidade de fechar o acordo e que o melhor seria mesmo o empresário deixar o Brasil. "Se for pra dar imunidade, que seja fora pra ninguém ver tua cara, ninguém lembrar que você existe", diz Fernanda.

OUTRO LADO

A J&F informou em nota que os áudios obtidos pela revista Veja, e relatados em reportagem que saiu nesta sexta-feira, 29, estavam entre as gravações entregues à Polícia Federal ainda antes do acordo de delação, mas eram mantidos sob sigilo pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Edson Fachin. As gravações não estão entre as que foram entregues acidentalmente à PGR pelos executivos da empresas e não são mais recentes que as demais já divulgadas, diz a nota publicada pela revista.

O texto informa que o material estava sob a guarda de Fachin, com sigilo decretado por se tratar de diálogos entre advogados e clientes, e havia sido considerado quando o acordo de delação dos executivos da JBS foi homologado.

Entre as informações que constam do áudio, há diálogos entre Joesley, o executivo Ricardo Saud e o diretor jurídico do grupo, Francisco de Assis e Silva, onde consideraram ter "ganho" os procuradores com as revelações feitas sobre o presidente Michel Temer (PMDB) e o senador Aécio Neves (PSDB-MG). O único risco seria um eventual compromisso político do então procurador-geral Rodrigo Janot com o peemedebista. "Mas não tem risco com o Aécio (...). Nós temos as duas opções. Ele não pode ser dar bem com o PSDB e o PMDB (...)", diz Saud. "Eles (os procuradores) querem f... o PMDB", arremata. 

Anteriormente, a revista dizia que o áudio estava entre os materiais que haviam sido sonegados ao Ministério Público Federal e que levaram, posteriormente, o então procurador-geral da República Rodrigo Janot a pedir a rescisão do acordo de delação e a prisão de Joesley e do executivo Ricardo Saud. 

Correções
29/09/2017 | 18h16

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