Rodrigo Félix/Estadão
Rodrigo Félix/Estadão

JBS cita Cabral em negociação sob suspeita

Presidente do grupo afirma que ex-governador negociou venda da Rica, cujo dono é acusado de lavar dinheiro de esquema de corrupção

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

06 Abril 2017 | 05h00

Correções: 06/04/2017 | 14h25

RIO - O presidente da JBS Foods International, Gilberto Tomazoni, afirmou nesta quarta-feira, 5, em depoimento à Justiça que o ex-governador do Rio Sérgio Cabral (PMDB) alegou “interesse do Estado” para tentar intermediar a venda da Frangos Rica para a empresa, em 2014. Tomazoni foi arrolado pela defesa do empresário Luiz Alexandre Igayara, um dos sócios-controladores da Rica Alimentos, da marca Frangos Rica. Igayara é acusado de lavar dinheiro do esquema de corrupção que teria sido chefiado por Cabral, durante e mesmo depois de seu governo.

“O negócio apresentado para nós seria de interesse do Estado (do Rio). Como todos os Estados fazem. Há sempre interesse, porque a avicultura é uma atividade que gera nível de emprego grande. (O objetivo de Cabral) foi essa reaproximação e tentar ver se tinha como as empresas fazerem negócio, o que acabou não ocorrendo”, declarou Tomazoni. Ele prestou depoimento ao juiz Marcelo Bretas, da 7.ª Vara Federal Criminal do Rio.

As investigações do Ministério Público Federal identificaram que a Rica fez pagamentos a uma empresa de Cabral, a SCF Comunicações. Também foram detectadas transferências de valores para firmas de dois colaboradores de Cabral, Carlos Emanuel Miranda e Luiz Carlos Bezerra, também presos, como o ex-governador, no Complexo de Gericinó, em Bangu. Houve ainda repasses para o escritório de advocacia da ex-primeira-dama Adriana Ancelmo, atualmente em prisão domiciliar no Leblon, zona sul da capital fluminense. 

Tratativas. O executivo disse que Cabral procurou um dos controladores da JBS, Joesley Batista, para tratar do negócio. “Joesley falou que o ex-governador Cabral o procurou e disse que seria importante para o Rio de Janeiro desenvolver a atividade de frango. Assim foi feito. Visitamos a operação dele (Igayara) e novamente o negócio não se mostrou viável.”

Segundo ele, o ex-governador insistiu nas tratativas alegando que o negócio era importante para a geração de empregos no Rio. A Rica é uma empresa local e hoje está em recuperação judicial.

No caso dos supostos contatos para a venda da Rica, feitos quando Cabral já havia renunciado ao cargo, em abril de 2014, o presidente da JBS afirmou que não houve nada inapropriado. A aquisição da Rica já havia sido descartada pela empresa de carnes, uma vez que as partes não haviam entrado em acordo.

Em novembro de 2016, Igayara foi conduzido coercitivamente para depor no âmbito da Operação Calicute, da Polícia Federal, cujo alvo principal foi Sérgio Cabral. 

Aquisição. Por nota oficial, a JBS reafirmou a versão apresentada por seu executivo: “A JBS implementou nos últimos anos uma estratégia de aquisição de várias empresas. A Rica, maior processadora de frango do Rio de Janeiro, foi uma das empresas avaliadas. A análise ocorreu em duas ocasiões: em 2014, apresentada pela Winner International Bank, e em 2015, pela própria empresa. A companhia decidiu não seguir adiante na aquisição por razões comerciais, após avaliação feita por seus executivos diretamente com a Rica”, informa a empresa.

“Posteriormente, a oportunidade do negócio também foi mencionada a Joesley Batista pelo ex-governador Sérgio Cabral, quando este já não ocupava nenhum cargo público. A negociação não prosperou pelas mesmas razões comerciais. O ex-governador não atuou como agente, intermediário ou corretor na negociação. Seu papel foi o de alguém que sugeriu uma empresa de seu Estado como uma oportunidade de aquisição”, finaliza a nota.

Correções
06/04/2017 | 14h25

O nome completo do cargo do executivo Gilberto Tomazoni é presidente da JBS Foods International e foi corrigido nesta versão.

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