'Jagunços eram os pistoleiros da Lumber', diz radialista

Radialista da região de Contestado promove projeto de resgate da história para a comunidade

Leonencio Nossa e Celso Júnior,

11 Fevereiro 2012 | 18h00

"Aqui fala o radialista caboclo JB, a voz do Contestado." João Batista Ferreira dos Santos, 43 anos, começa o seu programa de sábado na rádio Caçanjurê, em Caçador. Ao microfone, ele fala de um projeto que realiza com amigos de resgate da história do Contestado. "Gostaria de ter sido jornalista naquela época da guerra, para contar a história dos nossos caboclos que foram dizimados pelos jagunços da Lumber. Esses sim era os jagunços", afirma JB, nome de jornal tradicional, com sua voz grave.

 

 

No programa, ele fala das discriminações sofridas pela comunidade cabocla do oeste catarinense, de histórias narradas por avós que viveram os "trágicos dias" da guerra. Fora do ar, num sábado chuvoso, JB relata sua própria vida. Tem orgulho de ser o primeiro caboclo da cidade de Calmon, um dos palcos da guerra, que passou por uma universidade. É um feito. Dados do Ministério da Educação indicam que apenas 19% dos jovens de até 17 anos do município concluem o segundo grau.

 

Pai de três filhos , Mayara, de 17, Jaíne, 13, e Jones, 11, JB tem uma renda mensal de cerca de R$ 2 mil. Além do programa na Caçanjurê, é repórter na Rádio União, em União da Vitória, trabalha de assessor na prefeitura de Calmon, publica o jornal O Destaque, atua em serviços de divulgação de artistas, é mestre de cerimônias em eventos públicos em Matos Costa, colabora no Jornal da Cidade de Caçador, é ghost writer de deputados e vereadores e escreve livros sobre o Contestado.

 

Na adolescência passada em plantações de tomate, foi contaminado por agrotóxico. Um médico avaliou que era caso de epilepsia. Os medicamentos tomados durante anos comprometeram ainda mais sua saúde. O sonho de ser jornalista não foi bem compreendido pela professora de português no ensino básico. Ela reclamava que JB só lia os textos com voz de narrador de rádio. Mais tarde, JB mandou uma fita com gravações para uma rádio de União da Vitória. Recebeu telefonema de uma produtora para comparecer à rádio. Chegando lá, a aparência de caboclo não animou a mulher. Perdeu a vaga.

 

Mais recentemente, enfrentou problemas para uma conquistar a vaga de assessor do prefeito de Calmon. "O pessoal dizia: mas esse pretinho não tem condições de assumir esse cargo", lembra, rindo. Do lado da família e dos amigos próximos, no entanto, JB tinha ido longe demais. Um irmão chegou a usar seus ternos para passar por ele nos povoados da região. Se passando por JB, a voz do Contestado, o irmão pediu dinheiro emprestado, fez dívidas no comércio e acabou preso.

 

Outro irmão, Ezequiel, cortador de pinus, é só orgulho da fama de JB. Ezequiel diz que ajudou a garantir o sustento da mãe e de outros irmãos enquanto JB estudava e tentava se formar em jornalismo. JB não apenas se formou como é autor do primeiro livro publicado na cidade - "Calmon na história do Contestado".

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