Influência do PR nos Transportes atingiu até TCU

O ministro Augusto Nardes deixou de relatar os gastos em obras rodoviárias após a chegada de seu irmão Cajar Nardes ao Dnit

Vannildo Mendes, de O Estado de S.Paulo

20 Julho 2011 | 23h00

BRASÍLIA - O esquema de controle e direcionamento do dinheiro público nas obras do Ministério dos Transportes montado pelo PR tem pontes com o Congresso e com o Tribunal de Contas da União (TCU).

 

No TCU, o esquema criou um constrangimento para o ministro Augusto Nardes, relator dos gastos em obras rodoviárias, com a nomeação do irmão dele, Cajar Nardes, em 2008, para gerência de projetos do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit). Cajar foi secretário de Estado no Mato Grosso até 2005, junto com o diretor-geral afastado do Dnit Luiz Antônio Pagot, no segundo mandato do governador Blairo Maggi, hoje senador pelo PR. Foi Pagot quem convidou Cajar para o cargo.

 

A chegada de Cajar ao Dnit obrigou o órgão de controle de contas a repassar os processos de Augusto Nardes para Raimundo Carreiro, um ministro fiel aos senadores. Carreiro chegou ao TCU em 2007, com o apoio do atual presidente do Congresso, o senador José Sarney (PMDB-AP).

 

Irmão do senador Magno Malta (PR-ES), Maurício Pereira Malta foi guindado à posição de chefe da Assessoria Parlamentar do Dnit em 2007 - três anos depois do irmão ser eleito para o Senado.

 

Na terça-feira passada, Magno Malta, líder do PR, não participou da sabatina do diretor afastado do Dnit Luiz Antonio Pagot na Comissão de Infraestrutura. Mandou dizer que estava "com dores lombares" e que havia pedido ao senador Clésio Andrade (PR-MG), que é presidente da Confederação Nacional dos Transportes (CNT), para substituí-lo. Os senadores não costumam desperdiçar esses momentos de exposição aos holofotes, onde passam horas fazendo perguntas diante das câmaras das emissoras de televisão.

 

Maurício Malta cuida dos interesses dos parlamentares ligados às obras financiadas com dinheiro do Orçamento e presta contas do trabalho a uma bancada de 40 deputados e 6 senadores do PR.

 

Em nota enviada ao Estado, ele negou que faça lobby em favor dos parlamentares do PR e disse que sua ação é institucional, "junto a todos os partidos". A principal função, descreveu, é "dar vazão às demandas do Dnit junto aos parlamentares". Acrescentou que "não tem envolvimento com a área técnica ou de licitações" da autarquia.

 

Impedido. Em 2008, quando Cajar Nardes foi para o Dnit, o TCU relatava um processo atrás do outro sobre obras de infraestrutura tocadas pela União - algumas delas faziam parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) -, aplicando multa e descrevendo irregularidades que iam de superfaturamento a descontrole na concessão de aditivos. Por trás da ação do tribunal estava justamente o relator de contas rodoviárias, Augusto Nardes.

 

Com a posse do irmão no Dnit, o ministro se declarou impedido de fiscalizar ou participar do julgamento de obras do órgão. O correto, afirmou uma fonte do Planalto, era o Dnit não ter chamado para um cargo do órgão um empresário que tinha um irmão no TCU - por conta disso, o governo avalia agora que a escolha da Cajar Nardes foi proposital.

 

Em resposta enviada à reportagem do Estado pela assessoria do Dnit, via e-mail, Cajar negou que tenha feito tráfico de influência ou causado constrangimento ao irmão ou ao TCU com sua ida para a autarquia. Ele disse que, como gerente de projetos, "não se envolve com execução de obras diretamente".

 

Embora resida em Brasília, Cajar, que é gaúcho de Santo Ângelo, foi escolhido presidente do PR no Rio Grande do Sul, onde o partido está se estruturando fortemente, o que dá uma mostra de sua importância no grupo. O partido não tem deputados no Estado, mas se organiza rápido no interior. Desde o início do ano, ele vinha se desdobrando em visitas a cidades como Bagé e Estrela, onde firmou alianças e prometeu obras. A expansão do PR vinha se dando também no Paraná e Santa Catarina.

 

Nomeações. Principal cacique do partido, o deputado federal e atual secretário geral do PR, Valdemar Costa Neto (SP), nomeou a maioria dos dirigentes do ministério dos Transportes e órgãos coligados. Só o Dnit, tem um orçamento anual de mais de R$ 15 bilhões. Os lobbies do partido eram encaminhados à Coordenadoria Geral de Cadastro e Licitações.

 

A coordenadoria é subordinada ao diretor executivo do Dnit, José Henrique Sadok, afastado após reportagem do Estado revelar que sua mulher ganhara contratos de pelo menos R$ 18,9 milhões para tocar obras rodoviárias em Roraima. A influência do senador Magno Malta se estende também à Diretoria de Infraestrutura Ferroviária, onde emplacou Geraldo Lourenço de Souza Neto.

 

Procurado em seu gabinete em Brasília e no Espírito Santo, o senador Magno Malta não retornou as ligações nem respondeu às mensagens de e-mails enviadas desde ontem.

 

No gabinete, a informação é que ele está em viagem pelo interior do Espírito Santo e não pode ser localizado. Magno está sumido desde a eclosão das denúncias no Ministério dos Transportes.

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