Inflação assombra e câmbio desafia

Cenário externo incerto e indicadores internos com sinais trocados tornam condução da economia especialmente difícil neste início de governo

Fabio Graner, de O Estado de S. Paulo

09 Abril 2011 | 16h00

BRASÍLIA - No centésimo dia de governo, a política econômica da presidente Dilma Rousseff está diante das mesmíssimas dificuldades do primeiro dia, o da posse. A inflação não parou de subir e, apesar dos apertos nos juros e no crédito, o mercado financeiro não comprou a tese da equipe econômica, de que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) será domado até 2012, elevando semana a semana as projeções de alta neste e no próximo ano. Em outro front, o cambial, o problema da contínua valorização do real parece estar longe de ser resolvido e segue desafiando Planalto, Fazenda e Banco Central.

 

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Os analistas se dividem na avaliação da gestão econômica. O economista-chefe da consultoria MB Associados, Sérgio Vale, faz uma comparação dura: "Os primeiros 100 dias de Dilma se parecem com o governo Geisel: negligência com a inflação, campeões nacionais escolhidos pelo governo, aumento da estatização, crença no crescimento do investimento para resolver o problema de demanda".

 

Carlos Thadeu de Freitas, ex-diretor do BC, avalia que o governo está agindo de forma bastante pragmática dadas as incertezas que envolvem, sobretudo, o cenário internacional. As medidas adotadas estão sendo efetivas, diz, para promover uma desaceleração lenta do nível de atividade, sem movimentos abruptos.

 

Sinais trocados. Os críticos de uma suposta paralisia do governo são confrontados com o fato de que o Banco Central brasileiro foi o que mais elevou juros neste ano e também desde 2010, com a Índia em segundo lugar. Há hoje o cuidado em não exagerar na dose e derrubar a economia, especialmente se o rumo do resto do mundo continua uma incógnita. Também há mais cautela em aumentar juros para não acentuar a tendência de valorização do real, batalha que tem imposto derrotas constantes ao governo.

 

O incerto cenário externo - alta do preço do petróleo, piora na crise fiscal da Europa, dúvidas sobre a recuperação dos EUA e o nível de desaceleração da China - e os sinais trocados de indicadores internos deixaram a tarefa de conduzir a economia especialmente difícil neste início de novo governo. O sinais internos ora mostram a atividade desacelerando ora mostram que persistiria o temido sobreaquecimento.

 

Nos últimos dois trimestres de 2010, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro já cresceu em um nível teoricamente abaixo de sua capacidade não inflacionária - cujas estimativas variam de 3,5% a 5%. O problema que parte do mercado avalia, e o próprio BC enxerga, que esse dado atualmente é enganoso, porque, como as importações estão subindo muito, há uma perda no resultado total do PIB, enquanto a demanda interna, que é o que interessa para a inflação, ainda estaria muito forte e alimentando as remarcações de preços.

 

O BC e a Fazenda já enxergam um arrefecimento também da demanda interna e uma trajetória de crescimento cada vez mais próxima da capacidade de a economia ofertar bens e serviços. Apostam, ainda, que esse ajuste vai continuar, refletindo a combinação de medidas clássicas - como a alta dos juros e o aumento do superávit primário efetivo (economia para pagamento de juros) - e das chamadas medidas macroprudenciais.

 

Essas providências buscam diminuir a oferta de dinheiro na economia (via aumento de depósitos compulsórios) e reduzir o crédito, cuja mais recente ação ocorreu na última semana, quando o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) nos financiamentos para pessoa física dobrou.

 

Modelo do FED. A dificuldade principal para o governo está no fato de que boa parte do mercado não tem confiança de que a estratégia vá dar certo. "Os 100 primeiros dias da gestão Dilma mostram um governo sistematicamente equivocado no diagnóstico dos problemas mais graves da economia: a inflação tem sido recorrentemente negligenciada e o IPCA de março é mais uma prova disso. O ajuste fiscal é tratado com desdém e já foi esquecido. E o BC jogar a tolha para a meta deste ano é um fato inédito, basicamente por ter instrumentos para tentar evitar isso e não querer usá-los", disse Sérgio Vale.

 

Na opinião dele, os erros dos 100 primeiros dias revelam algo mais: "Que o governo tem sido coerente no diagnóstico equivocado. O próprio BC também acredita que as commodities são o centro do problema da inflação, o que é negado a cada dado novo que é divulgado", acrescentou Vale.

 

O economista da MB Associados foca a crítica também na avaliação que o governo faz da questão cambial: "O governo tem insistido, há três meses, que o principal problema do País é o câmbio, o que é um absurdo. A valorização do real é reflexo do bom estado da economia hoje. Tentar mudar sua trajetória ou mesmo estabilizá-lo é infrutífero, como tem sido mostrado a cada nova medida. E tentar medidas mais fortes apenas vai levar a economia mais rápido para o desequilíbrio", diz Vale.

 

O economista Carlos Thadeu de Freitas entende a cautela do governo Dilma. "Há uma preocupação no sentido de não errar no processo de desaceleração. E isso é novo. O governo está olhando para a inflação e para atividade", disse ao Estado, lembrando que esse modelo lembra o dos EUA. Lá, o BC local (o Federal Reserve) tem mandato para controlar a inflação e garantir o pleno emprego.

 

Freitas reconheceu, no entanto, que o governo brasileiro não tem sido bem-sucedido no processo de coordenação de expectativas inflacionárias - que são utilizadas pelos agentes econômicos na definição de seus preços, sejam de produtos, serviços ou salários. "O desafio do governo é ancorar as expectativas. Aqui está o ponto importante: quem vai ganhar essa disputa (entre governo e mercado)?", perguntou.

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