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Índios são presos por suspeita de assassinato em Humaitá

José Maria Tomazela e Chico Siqueira, especial para O Estado - O Estado de S. Paulo

31 Janeiro 2014 | 22h 08

Familiares de três vítimas no sul do Amazonas dizem que vão pedir indenização ao governo

As famílias dos três homens que desapareceram na reserva indígena tenharim, em Humaitá, sul do Amazonas, vão entrar com ações de indenização contra a Fundação Nacional do Índio (Funai) e a União. De acordo com o advogado Carlos Terrinha, que representa as famílias, a prisão de cinco índios na quinta-feira passada pela Polícia Federal confirma os assassinatos dos homens pelos indígenas, que são tutelados pela União.

"Vamos aguardar que o inquérito seja concluído pela Polícia Federal e recebido pela Justiça para iniciar as ações", disse Terrinha. Ele representa as famílias do professor Stef Pinheiro de Souza, do técnico Aldeney Ribeiro Salvador e do representante comercial Luciano Ferreira Freire, os três desaparecidos.

Segundo a Polícia Federal, os três amigos foram sequestrados e mortos pelos índios em retaliação pela morte do cacique Ivan Tenharim, no dia 3 de dezembro. O inquérito concluiu que o cacique morreu em decorrência de um acidente de moto, mas uma suspeita levantada pelo então coordenador da Funai na região, Ivã Bocchini, levou os índios a acreditar que ele foi morto por brancos que se opunham à cobrança de pedágio na Transamazônica. Após mais de um mês de investigação, a PF concluiu que os homens foram assassinados e tiveram os corpos jogados num rio.

Além de dois filhos do cacique Ivan Tenharim – Gilvan e Gilson Tenharim –, foram presos Simeão Tenharim, Adalmir Sena, chefe da aldeia Taboca, e João Bosco, da aldeia Marmelos.

O pai do professor Stef de Souza, Nilo Bezerra Mota de Souza, disse que dinheiro nenhum paga a dor de sua perda. "Quero apenas justiça. Espero que eles (os índios) respondam pelo que fizeram. A família queria ao menos ter o corpo para enterrar, mas nem isso."

"A gente sabia que, pela demora, poderíamos receber notícia ruim, mas a gente sempre teve uma ponta de esperança de que pudessem estar vivos", afirmou Irisneia de Souza, mulher do professor. "A gente nem sabe o que dizer, porque estamos atordoados. A PF disse que mataram os três meninos no mesmo dia, a tiros, não sabemos se foi isso mesmo." Segundo Irisneia, os parentes das vítimas devem organizar um culto ecumênico na próxima semana.

Provas. As prisões e a notícia de que outros índios ainda podem ser presos fizeram recrudescer a tensão no sul do Amazonas. Indígenas de várias aldeias das etnias tenharim e jiahui declararam-se em estado de guerra como forma de protesto. As lideranças alegam que não há provas contra os índios presos. O índio Luiz Sérgio Jiahui disse por telefone que seu povo está há mais de um mês completamente isolado. "Não tivemos nada com o desaparecimento, mas estamos pagando como se nosso povo fosse culpado. O governo federal precisa ver o que está acontecendo aqui."

Em nota, a Polícia Federal informou que as prisões provisórias foram pedidas com base em fortes indícios de que os acusados praticaram os crimes. Após mais de um mês de investigação, foram ouvidas várias testemunhas e feita a perícia em peças de um carro encontradas na reserva. Segundo a PF, as investigações vão continuar, assim como a busca pelos corpos das vítimas.

Moradores do distrito de Santo Antônio do Matupi evitaram viajar ontem para Humaitá, distante 180 quilômetros, com medo da reação dos tenharins. "A gente está evitando passar pelas aldeias porque a situação ficou tensa depois da prisão dos índios", disse o produtor rural Fernando Rodrigo Vieira.

Na quinta-feira passada, a Transamazônica ficou fechada por 12 horas e motoristas que precisaram passar pela terra indígena foram escoltados pela Polícia Rodoviária Federal.

Força-tarefa. A força-tarefa composta pelo Exército, Força Nacional, Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal permanece na região e controla a Transamazônica no trecho que corta a reserva. Ontem houve reforço na tropa do Exército em Santo Antonio do Matupi. Veículos do 54.º Batalhão de Infantaria de Selva de Humaitá foram para a região.

Desde o Natal, quando a população incendiou a Funai, tenharins e índios de outras etnias não entram na área urbana. "É preciso que a PF conclua as investigações e dê uma satisfação às famílias para tudo voltar ao normal", disse o prefeito José Cidenei Lobo do Nascimento (PMDB).