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Índios podem ficar sem aulas se conflito persistir no Amazonas

José Maria Tomazela - O Estado de S. Paulo

05 Janeiro 2014 | 16h 44

Instalações indígenas na cidade e na entrada das aldeias foram destruídas, e população permanece confinada na reserva

A persistência do conflito entre brancos e índios pelo desaparecimento de três homens na reserva tenharim-marmelos há 20 dias pode deixar crianças e jovens indígenas sem aulas no início do ano escolar, em Humaitá, sul do Amazonas. O calendário de 2014 foi adiantado em razão da Copa e o ano letivo começa em menos de um mês. De acordo com Ivanildo Tenharim, representante da etnia e coordenador de Educação Escolar Indígena em Humaitá, mais de trinta professores índios que atuam nas 13 escolas indígenas do município terão de passar por um curso de capacitação na cidade antes do início das aulas.

Após o conflito que resultou na destruição das instalações indígenas na cidade e na entrada das aldeias, os índios permanecem confinados na reserva, o mesmo ocorrendo com os professores. "Além da falta de alimentação e de atendimento médico, essa é a questão que mais nos preocupa", disse Ivanildo. Segundo ele, as aldeias estão num processo de integração escolar que não pode ser interrompido. "Levamos muito tempo para chegar ao estágio atual e agora tudo depende da educação." No final de janeiro, seria realizada uma oficina pedagógica para professores que atendem, além dos tenharim, outros povos, como os parintintins, apurinã, tora, mura e manducuru, mas já foi cancelada.

Ivanildo, que desde o início negou a participação dos índios no desaparecimento dos três brancos, disse que os tenharins valorizam a língua materna, os costumes e a cultura. "Não somos a causa dessa revolta, mas estamos sofrendo as consequências. Esperamos que a polícia forneça logo as respostas que a população espera para voltarmos à vida normal." A questão escolar foi levada à Fundação Nacional do Índio (Funai). Segundo ele, o órgão está envolvido com o atendimento de necessidades mais imediatas dos indígenas, como alimentação, atendimento médico e segurança.

Os três homens desapareceram na rodovia Transamazônica, quando passavam de carro pela reserva indígena no dia 16 de dezembro. Há dez dias uma força-tarefa comandada pela Polícia Federal realiza buscas na região. Foram encontrados na sexta-feira restos de um carro incendiado próximo de uma aldeia tenharim. A perícia que vai determinar se era o veículo usado pelos desaparecidos deve ser finalizada nos próximos dias. Toda a área está sendo patrulhada pela Força Nacional de Segurança, Polícia Rodoviária Federal e homens do Exército.

Na terça-feira (7), o general de exército Eduardo Dias da Costa Villas Boas, comandante militar da Amazônia, vai sobrevoar a região. Ele deve decidir se autoriza a entrada na floresta da tropa de elite do Exército, especialista em combate na selva, para ajudar nas buscas, como querem familiares dos desaparecidos. Antes do sobrevoo, Villas Boas se reúne com o general de brigada Ubiratan Poty, em Porto Velho.

Suspeita. O advogado das famílias dos desaparecidos, Carlos Terrinha, vai pedir à Funai que investigue a conduta do coordenador regional do Madeira, Ivã Bocchini, que teria usado o blog oficial do órgão para levantar suspeitas sobre a morte do cacique Ivan Tenharim, após acidente de moto, dia 3 de dezembro. "As autoridades competentes devem ser capazes, agora, de dar uma resposta à altura da importância que o cacique tinha para os tenharim. A Funai irá cobrar a polícia para que haja uma investigação e seja apontada a verdadeira causa da morte", escreveu.

A suspeita foi levantada por Bocchini antes do desaparecimento dos três homens na Transamazônica e levou a população a ligar os casos. "Foi o estopim de tudo", afirmou Terrinha. A coordenação da Funai não tinha expediente neste domingo e Bocchini não foi localizado. Em contato anterior, ele havia dito que acompanhou o velório do cacique e apenas relatou as suspeitas levantadas pelos próprios índios durante a cerimônia.

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