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Indicação de ex-diretor da Petrobrás gera bate-boca entre senadores

Ricardo Brito - O Estado de S. Paulo

20 Março 2014 | 21h 14

Renan Calheiros, presidente do Senado, e Delcídio Amaral se acusam de terem indicado Nestor Cerveró, responsável pelo relatório que fundamentou a controversa compra da refinaria de Pasadena

Brasília - Em mais um capítulo no bate-boca sobre quem apadrinhou o ex-diretor da internacional Petrobrás Nestor Cerveró, o senador Delcídio Amaral (PT-MS) afirmou na noite desta quinta, 20, que o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), tinha "ascendência forte" sobre o ex-dirigente da estatal. No início da noite, o petista reafirmou não ter indicado Cerveró, tendo apenas avalizado seu nome quando foi consultado.

Desde cedo, Delcídio e Renan têm trocado acusações públicas sobre quem seria o responsável pela indicação. O petista acusou o peemedebista de ser o padrinho de Cerveró e, logo em seguida, Renan rebateu e disse que a indicação era de Delcídio.

O ex-diretor da estatal está no meio da polêmica que envolveu a presidente Dilma Rousseff na compra da refinaria de Pasadena (EUA) pela Petrobrás, que já era considerada obsoleta em 2005. Quando Dilma era presidente do Conselho de Administração da estatal e ministra-chefe da Casa Civil, ainda no governo Lula, ela aprovou a transação, em 2006, com base em resumo feito por Cerveró.

Por meio de nota ao Estado, Dilma justificou a decisão dizendo que só apoiou a medida porque recebeu "informações incompletas" de um parecer "técnica e juridicamente falho". A Petrobrás acabou desembolsando US$ 1,18 bilhão na operação. A compra é investigada por Polícia Federal, Tribunal de Contas da União e Congresso por suspeitas de superfaturamento e evasão de divisas.

O "resumo executivo" sobre Pasadena foi elaborado em 2006 pela diretoria internacional da Petrobrás, então comandada por Cerveró, que defendia a compra da refinaria como medida para expandir a capacidade de refino no exterior e melhorar a qualidade dos derivados de petróleo brasileiros. Conforme o Estado revelou na edição desta quinta, Cerveró, responsável pelo parecer "falho", viajou de férias para a Europa. Ele é, atualmente, diretor financeiro da BR Distribuidora.

Delcídio afirmou que, no início do governo Lula, em 2003, foi consultado sobre o nome do diretor o nome de Cerveró. O senador já havia trabalhado com ele anteriormente. Delcídio disse não ter colocado "nenhum óbice" ao nome, tendo avalizado a indicação. O senador do PT atribuiu ao PMDB a responsabilidade pela diretoria internacional da estatal e que Renan teria apadrinhado a indicação de Cerveró. "Isso é fato sabido", destacou.

Confira o que cada parlamentar disse:

Para o petista, Renan Calheiros estava "um pouco nervoso" quando, mais cedo, disse que ele "certamente" não havia indicado o ex-diretor para "roubar" a Petrobrás. Ao tentar colocar panos quentes no bate-boca, Delcídio disse que Renan é um "homem pragmático".

E insinuou, citando o caso do comandante Franscesco Schettino, que o peemedebista tem interesse em nomear um sucessor de Cerveró na BR Distribuidora. O comandante foi um dos primeiros a abandonar o barco Costa Concórdia em 2012, após o navio ter se chocado com rochas em um acidente que matou 32 pessoas. "Rei morto, rei posto", ironizou o petista.

O senador do PT não quis opinar sobre o processo de venda da refinaria. Mas disse que, pelo que conhece da estatal, as transações da Petrobrás passam por várias instâncias de análise até chegar ao Conselho de Administração. "Não sei esse processo como tramitou, mas a sistemática é essa", afirmou.

Ex-presidente da CPI dos Correios, que investigou o escândalo do mensalão, o petista se disse contrário à abertura de uma comissão parlamentar para investigar a operação. Ele afirmou que é "muito cedo" para abrir uma CPI porque as áreas de controle já estão tomando suas providências. Mas ressalvou que essa é uma decisão política.