André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

'Impeachment é problema, e não solução', diz Janine

Para Renato Janine Ribeiro, que deixou pasta da Educação, Parlamento tem projetos onerosos para momento de crise

Entrevista com

Luiz Fernando Toledo, Victor Vieira, O Estado de S.Paulo

08 Outubro 2015 | 02h07

SÃO PAULO - Ao deixar o Ministério da Educação (MEC), assumido na quarta por Aloizio Mercadante, o filósofo Renato Janine Ribeiro disse que não se sentiu usado pelo governo, embora tenha ficado menos de seis meses no cargo. Para ele, que agora pretende se dedicar a escrever um livro de filosofia política e outro de crítica de arte, a difícil situação política levou à troca na pasta contra a vontade da presidente. Em relação à possibilidade de impeachment de Dilma Rousseff, Janine acredita que há "ilusão" no debate sobre as vantagens da medida. "Ao tirar o mandatário eleito, há problema, e não solução."

O senhor se sentiu "usado" por ter sido nomeado em abril e afastado poucos meses depois?

Não. A presidente foi muito clara, extremamente gentil e cordial comigo. Explicou que era uma coisa que ela não queria fazer, mas estava fazendo devido a todo esse conjunto de problemas políticos. Vejo que o ministro Mercadante vai dar continuidade a tudo que foi elaborado pela minha equipe. Não me senti usado, mas acho que a situação política está difícil no Brasil. Nesta situação, acontecem coisas que não são as preferidas das pessoas.

Não causa preocupação que o MEC tenha entrado na negociação da reforma ministerial?

Se você dissesse isso do Ministério da Saúde, eu entenderia. Não do MEC, que foi confiado a um ex-ministro da Educação, que era o ministro principal do governo.

Mas não foi um reflexo da negociação política?

Só quero dizer que a passagem ao ministro Mercadante não representa vulnerabilidade ao ministério. Quando falamos em negociação política, faz parecer que o governo tornou o ministério vulnerável a pressões. E não está.

A presidente tornou o governo mais vulnerável nessa reforma ministerial?

Ainda não tenho distância suficiente para fazer este tipo de análise política.

A instabilidade política afetou as ações do MEC?

Não diria isso. Estamos com uma dificuldade econômica séria, que afeta todo o resto: a política, o orçamento. A instabilidade política é pela falta de dinheiro, não o contrário. E neste quadro, há setores que fazem pressões mais absurdas. É absolutamente espantoso imaginar que em um momento em que o Brasil está cortando despesas tão fundamentais, como educação e saúde, haja um Congresso com projetos extremamente onerosos. É uma falta de responsabilidade. Mas o MEC foi extremamente preservado destas pressões.

A oposição prejudica o debate sobre educação?

Podemos discordar quanto às medidas a serem tomadas, mas o diagnóstico é próximo. Do lado do governo, temos certas opções do que fazer, da oposição, outras. Na política, não, a própria descrição dos fatos pela direita e pela esquerda é diferente. O que vai fazer o futuro do País não são as fofocas deste ano, as borbulhas políticas. O que vai construir o futuro é a educação.

Para o senhor, a oposição quer tomar o poder à força?

Não à força. Não vejo nada como um golpe militar. Mas há pessoas que pensam que ao retirar o mandato da presidente Dilma, se resolvem os problemas. Ao tirar o mandatário eleito, não há solução, mas problema. Há ilusão sobre isso na discussão política brasileira.

Como o senhor avalia sua passagem pelo MEC?

Foi um tempo difícil por causa da falta de recursos, que foi crescendo. Mas foi também um período rico, porque era preciso fazer as coisas de uma forma que exigia mudanças de atitude. Em ocasiões de crise, você tem de utilizar os recursos para melhorar os projetos, para que se tenha programas melhores na sequência. Uma coisa que eu comecei a fazer foi rever ações. Pensar nas boas intenções que não estavam produzindo resultado desejado e mudá-las. Também senti orgulho de que tenhamos sido transparentes. Anunciamos o resultado da alfabetização (Avaliação Nacional de Alfabetização), mesmo com resultados espantosos. O fato de anunciar estes dados mostra que você está realmente disposto a enfrentar o problema.

Qual é o principal problema para avançar na educação?

A educação não tem a popularidade da saúde. Na educação, não há a mesma sensação de urgência. Os pais não sabem avaliar se a educação dos filhos é boa ou ruim. Mas se o pai leva o filho ao hospital e ele continua com febre, sabe avaliar. Com isso, há uma demanda social por educação que é menor do que na saúde. E é um erro achar que soluções vêm de cima para baixo. De que o ministro precisa fazer, de que a presidente precisa, por causa da Pátria Educadora. Tem que inverter essa pirâmide. Uma demanda por educação que venha de baixo para cima: que as pessoas se preocupem com qualidade da educação, com planos de educação, sem cair na bobagem da discussão de gênero, promovida por grupos conservadores.

Com crise política e ajuste fiscal, a presidente errou ao escolher o slogan 'Pátria Educadora'?

Esse slogan é muito mais abrangente do que apenas a educação. Ele não está só na questão do ensino ou do desempenho escolar. Conseguimos, em algumas partes do Brasil, mas não em outras, o respeito no trânsito, por exemplo. O fato de que o motorista para o carro para o pedestre passar. Isso faz parte da Pátria Educadora, é um conceito abrangente. Outra questão é o respeito ao outro e da discussão com argumentação. É algo que no Brasil, infelizmente, é precário. Não se trata apenas de obter um diploma.

Vai haver atraso no cumprimento das metas do Plano Nacional de Educação (PNE)?

Quando você tem metas vinculadas ao dinheiro, fica difícil. Sabemos que não há dinheiro hoje para fazer com que no ano que vem haja tudo que estava previsto no PNE, vai haver alguns anos de atraso. Mas o PNE não pode ser entendido só pelo dinheiro. É um projeto articulado de como se melhora a educação no Brasil. Quando cheguei ao MEC, orientei secretários para tratar das estratégias, que são os tijolos de construção das metas do PNE. A ideia era pegar as estratégias de baixo custo ou custo zero, deixar tudo pronto para quando a economia melhorar. A Base Nacional Comum, por exemplo. Temos de fazer o que não depende de dinheiro, mas de inteligência, dedicação, mudanças de métodos.

O que o MEC deve priorizar nos próximos anos?

O Brasil deveria entender que a alfabetização na idade certa é prioridade zero, porque tem pior efeito na sequência. Se o menino e a menina de oito anos termina o terceiro ano do ensino fundamental sem saber ler, escrever ou fazer contas, o risco é enorme de que jamais aprenda, é uma bola de neve.

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