Ibope: sem vento a favor

Depois de tomar a caneta da mão de Dilma Rousseff, o PMDB e Michel Temer esperavam que uma onda de otimismo os resgatasse do turbilhão econômico e os levasse ao Planalto em segurança. Não veio nem uma marolinha. A população, em geral, está desconfiada e reticente - mostra pesquisa inédita do Ibope. E os agentes econômicos, embora adotem discurso de boa vontade, por ora só realizaram lucro, derrubando a Bolsa desde a votação no Senado.

José Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

23 Maio 2016 | 06h13

Hoje, há um empate técnico na opinião pública entre otimismo e pessimismo sobre o futuro do Brasil. Segundo nova pesquisa do Ibope, 34% estão pessimistas (24%) ou muito pessimistas (10%) quanto ao que o País terá pela frente, contra 31% de otimistas (27%) e muito otimistas (4%). Outros 30% estão neutros, e o resto não sabe. É problema. Com um terço de cada lado do muro e outro terço sobre ele, não há tendência, apenas imobilismo.

Em outras palavras, o novo governo não poderá contar com o vento a seu favor. Vai ter de remar para tirar o País de onde está. Diante da inércia da opinião pública, Temer terá que demonstrar força e capacidade de liderança. As idas e vindas na formação do ministério, as nomeações fisiológicas para o governo e o fraquejar diante das pressões externas não ajudaram a provar que o presidente interino é o capitão que a tripulação espera.

Mas Itamar Franco tampouco inspirava muita confiança nos marujos de sua época. Em novembro de 1992, após o afastamento de Fernando Collor, o Ibope fez a mesma pergunta que repetiu agora. Na ocasião, o otimismo era ainda menor (27%) e o pessimismo chegava aos 40%. O topo do muro era ocupado por 25% da população. Custou 19 meses, três ministros da Fazenda e uma nova moeda para Itamar conseguir tirar o navio da tempestade.

A questão é que a barca de Temer não terá todo esse tempo para se mexer. Há um sentimento de urgência a bordo. Os embarcados concordam que o temporal econômico vai piorar antes de melhorar. Há eleições em outubro e, se as remadas decisivas não forem dadas logo, vai ser difícil encontrar um discurso eleitoral vendável para os sócios do governo federal - tudo isso com o julgamento de Dilma no Senado e uma Olimpíada no meio.

Por isso, esta e as próximas semanas serão as mais importantes para o governo interino. Ou demonstra que conseguirá usar sua base franciscana para aprovar as medidas impopulares que, por seu diagnóstico, são necessárias, ou corre risco de naufrágio.

Além de o tempo conspirar contra Temer e sua marujada, há uma reticência, um sentimento de descrédito e desconfiança em relação aos políticos e à política ainda pior do que na época de Itamar. No fim de 1992, a maior parte (44%) dizia que o Brasil seria um País mais honesto depois do impeachment de Collor. Hoje, a maioria (53%) acredita que tudo continuará do mesmo jeito. Só 26% apostam em mais honestidade. Um cínico poderia dizer que a ingenuidade do brasileiro caiu 40% em 23 anos.

Ao mesmo tempo, o ceticismo praticamente dobrou. Nunca foi tão grande a parcela dos que predizem que o Brasil será um País ainda menos honesto do que já é: 17%. Pode parecer estranho que o auge do “ceticinismo” surja justamente em meio à maior investigação de corrupção já ocorrida, da qual resultaram detenções, cassações e condenações judiciais inéditas de alguns dos empreiteiros, banqueiros e políticos mais poderosos do País.

A pesquisa sugere que - ao contrário do lugar-comum -, o problema do Brasil não é a impunidade: é a corrupção entranhada mesmo. Uma corrupção que não depende de partido, que é do sistema político-eleitoral e que se perpetua a despeito das pessoas que acabam presas pelo caminho. Se a interpretação estiver correta, é sinal de que os eleitores são mais racionais em relação à política brasileira do que sues eleitos.

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