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Política

Brasília

Gurgel diz no Conselho de Ética que assinou documento sob efeito de álcool e remédio controlado

Deputado afirmou que faz tratamento psicológico, toma medicação forte e deixou documentos assinados para eventualidades; Vice-presidente do colegiado pede que denúncia de falsificação de assinatura seja encaminhada à Procuradoria-Geral da República

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Daiene Cardoso,
O Estado de S.Paulo

09 Março 2016 | 13h11

Brasília - Na tentativa de explicar a denúncia de que houve falsificação de assinatura de um documento encaminhado ao Conselho de Ética, o deputado Vinícius Gurgel (PR-AP) disse que não há falsificação de sua firma. Ele explicou hoje aos colegas que faz tratamento psicológico, que toma medicação forte e que, por essa razão, deixou documentos já assinados para eventualidades. Ele contou que, na ocasião que assinou o documento, estava sob efeito de álcool e que havia tomado medicamentos controlados. "Tomo remédio tarja preta e na quinta-feira bebi um pouco. Na sexta-feira, assinei esses documentos", declarou.

Gurgel disse que trata há mais de três anos de insônia, que o departamento médico da Câmara pode comprovar que ele faz esse tratamento e que hoje, inclusive, está de licença médica. Ele insistiu que não cometeu nenhum crime. "A assinatura é minha, não falsifiquei a assinatura de ninguém", afirmou.

O jornal Folha de S.Paulo consultou dois peritos que atestaram a falsidade da assinatura de Gurgel. Na noite da votação do parecer que deu continuidade ao processo disciplinar contra o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), Gurgel encaminhou uma carta de renúncia ao cargo de membro titular do colegiado. Na ocasião, o próprio líder do PR, deputado Maurício Quintella Lessa (AL), assumiu a função para assegurar que o voto favorável a Cunha fosse mantido. O parecer contra o peemedebista foi aprovado por 11 votos a 10.

Segundo o parlamentar, ele havia assinado às pressas uma série de cartas, inclusive de renúncia, quando estava no aeroporto de Brasília para viajar numa sexta-feira anterior à votação do colegiado. "Deixo no meu gabinete para que não aconteça esse tipo de problema", afirmou. Ele disse que passou a vaga para o líder do PR para fazer valer sua vontade de votar a favor de Cunha. "Eu queria que meu direito de voto fosse expressado da maneira que penso", justificou.

Ele afirmou que mesmo de licença, veio dar explicações aos colegas. Sua licença de duas semanas acaba na próxima sexta-feira. O deputado disse não temer que o episódio culmine com sua cassação. "Para cassar tem que ter provas", afirmou o parlamentar, minimizando os exames grafotécnicos. "É a palavra deles contra a minha. Eu considero que eu assinei", respondeu.

Repercussão. Para o vice-presidente do Conselho de Ética, Sandro Alex (PPS-PR), a denúncia de que houve a adulteração da assinatura deveria ser encaminhada à Procuradoria-Geral da República (PGR). O deputado federal também quer abertura de sindicância para apurar se a Secretaria Geral da Mesa realmente revisou a assinatura do parlamentar.

O relator da ação contra Cunha, deputado Marcos Rogério (PDT-RO), chamou o episódio de "manobra criminosa". "Se confirmada essa denúncia, estamos diante de um crime e uma tentativa de fraude aos trabalhos do conselho. Acho que esse é um caso para a polícia investigar", afirmou.

Membro do Conselho de Ética, o deputado Júlio Delgado (PSB-MG) sugeriu que, se confirmada a adulteração da assinatura de Gurgel, houve coautoria no episódio, que classificou de "ato criminal". Para ele, o caso "é da mais alta gravidade para o Conselho e para esta Casa", e também configura atentado contra o decoro parlamentar e a ética.

Nos últimos tempos, o Conselho de Ética vinha passando por sucessivas mudanças. Naquele mesmo dia foi anunciada a entrada do deputado Silas Câmara (PSD-AM) como suplente. Já o PTB mudou a deputada Jozi Araújo (AP) da titularidade para suplência e transferiu o deputado Sérgio Moraes (RS) de suplente para titular no bloco.

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