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Guerra fratricida

Tempos de crise são tempos de discórdia e é por isso que os duelos de 2015 tendem a se intensificar neste 2016. É PT contra PMDB, PMDB contra PMDB, PSDB contra PSDB, PSB contra PSB, STF contra STF, Câmara contra Senado, mas o mais grave é Dilma Rousseff versus Lula, até mais do que Dilma versus Michel Temer.

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Eliane Cantanhêde

03 Janeiro 2016 | 03h00

Com o processo de impeachment permeando tudo isso, tem-se, mais que duelos, também “trielos” e até “quadrielos”. Exemplo: Dilma que não amava Eduardo Cunha, que não amava Renan Calheiros, que não amava Temer, que não amava Dilma, que...

Na oposição, sem novidade: Geraldo Alckmin versus Aécio Neves, Aécio versus José Serra, Serra versus Alckmin... A cobra correndo atrás do próprio rabo, derrapando na trilha aberta por PPS, DEM e Solidariedade.

Nenhuma dessas guerras, porém, é mais importante e produz mais efeitos políticos do que a que se agrava entre o criador Lula e a criatura Dilma, que convivem num casamento sem saída: não há mais amor, respeito e esperança, mas o divórcio é impossível. Pelo menos neste momento. Passado o processo de impeachment, tenha o desfecho que tiver, e passada a eleição municipal, tenha o resultado que tiver, o foco será 2018. Aí, o casamento vai balançar.

Lula não faz mais questão de esconder, em privado, o quanto se decepcionou com Dilma e quão pouco espera dela como agente da recuperação do Brasil, seja na economia, seja na política. Se arrependimento matasse... O mínimo que ele tem dito é que “Dilminha” é teimosa, cabeça dura, jogou seu legado no ralo e se recusa a ouvir suas orientações, que ele adoraria serem acatadas como ordens do mentor e antigo chefe.

Exagero dele. Dilma tentou meses resistindo, mas acabou empurrando Aloizio Mercadante de volta ao ostracismo (alguém aí tem ouvido falar um “a” dele ou sobre ele?) e engolindo o anfíbio Jaques Wagner, que terá cada vez mais relevância em 2016. E ela também cedeu a Lula ao desistir de Joaquim Levy, saco de pancadas predileto do PT, da CUT, do MST e da UNE, que não podiam espancar Dilma, a eleita de Lula, e disfarçavam espancando Levy, o eleito de Dilma.

A presidente, porém, só deu meia vitória ao seu criador, que articulava a troca de Levy por Henrique Meirelles e de José Eduardo Cardozo por Nelson Jobim. Seria o fim do mundo, ou melhor, a pá de cal no governo. Ou alguém esqueceu o quanto Dilma detesta Meirelles e Jobim? Por isso, ela ficou no meio termo e, ao trocar Levy, olhou para o espelho e viu ali Nelson Barbosa, que pensa como ela, faz como ela, erra como ela. No dia seguinte, o PT botava a faca no pescoço de Barbosa para que ele faça tudo o que seu mestre, e não sua mestra, mandar.

Quem bombardeava Levy em público eram a executiva, as correntes, a fundação de estudos e os movimentos alinhados ao PT. Quem ameaça Barbosa é o próprio presidente do partido, Rui Falcão, que afronta abertamente a autoridade da presidente da República, como se oposição fosse. Então, pergunta-se: a executiva do PT, a fundação do PT, os movimentos do PT, as correntes do PT e o presidente nacional do PT dão um passo sem ordem, orientação ou respaldo de Lula? Muita gente acha que não. Dilma, provavelmente, também acha que não.

Logo, se 2015 foi o ano de todos contra todos, 2016 vai ser o ano da guerra fratricida entre Dilma e Lula. Ela tem o título, a caneta, o avião, os palácios e ainda o poder de nomear até Nelson Barbosa para a Fazenda, mas Lula tem a liderança política, a tropa, a capacidade de pôr ou não gente nas ruas. Aliás, de pôr a favor e de pôr contra.

Se Lula é o passado do PT, é também sua aposta para o futuro. Dilma não é nem passado, nem presente, nem futuro. É nada para o PT, que só precisa dela para tentar fazer a longa travessia até 2018 sem entregar o osso para Temer, ou seja, para o PMDB.

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