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Grupos ocupam simbolicamente o DOI-CODI, em SP

AE - Agência Estado

31 Março 2014 | 20h 49

Cerca de mil pessoas se reuniram na manhã desta segunda-feira diante do prédio que abrigou, nos anos da ditadura, a sede do Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), do 2º Exército, em São Paulo. Durante quase três horas, lembraram os 50 anos do golpe que depôs o presidente João Goulart, homenagearam as pessoas torturadas e mortas naquele local e pediram a revisão da Lei da Anistia, que hoje impede a punição de agentes policiais e militares que cometeram violações de direitos humanos.

Em um dos momentos da homenagem, cantaram o hino da Internacional Socialista para lembrar os comunistas assassinados pelos militares e marcar, de forma simbólica, a reocupação do espaço no qual funcionou um dos principais centros de repressão política do País.

O DOI-CODI funcionava no número 921 da Rua Tutóia, nos fundos do atual 36.º Distrito Policial de São Paulo, no Paraíso. Segundo informações da Comissão Estadual da Verdade Rubens Paiva, cerca de oito mil pessoas teriam passado por ali entre 1969 e 1978, sofrendo algum tipo de tortura. Desse total, cerca de cinquenta foram assassinadas.

Entre os mortos figuram o estudante Alexandre Vannuchi Leme (1973), que hoje dá nome ao Diretório Central dos Estudantes da Universidade de São Paulo (DCE-USP), e o jornalista Vladimir Herzog (1975). Nos dois casos os agentes policiais e militares tentaram acobertar os crimes, como acontecia comumente naquele local. Divulgaram a versão de que Herzog, que militava no Partido Comunista, havia se enforcado; e que Leme, da Ação Libertadora Nacional, fora atropelado numa tentativa de fuga.

Na cerimônia desta segunda, sob um toldo negro instalado no pátio que fica nos fundos do distrito policial, foram lidos os nomes dos mortos e desaparecidos. A cada um os presentes respondiam ''presente'', ao mesmo tempo que erguiam cartazes com as fotos deles. Grupos de teatro e de dança apresentaram obras que retrataram sobretudo o sofrimento do torturados. Também foi apresentada uma lista com os nomes dos militares que, segundo ex-presos políticos, teriam praticado torturas. A cada um deles os participantes respondiam com o grito de ''assassino''.

O deputado Adriano Diogo (PT), presidente da Comissão Estadual e um dos principais organizadores do evento, esteve preso e foi torturado naquele local durante noventa dias, no ano de 1973. Ele disse que há três noites não conseguia dormir direito, porque a volta ao prédio da Rua Tutóia lhe causa problemas emocionais até hoje, embora já tenham decorrido 41 anos. "Quando cheguei aqui e tiraram meu capuz, vi que estavam lavando o chão de uma cela, sujo de sangue. O militar que me recebeu disse que era o sangue do meu colega de escola Alexandre Vannuchi. ''Acabei de matar o Minhoca'', ele disse, referindo-se ao apelido dele. ''E vou matar você também''".

Relatos semelhantes eram ouvidos por toda parte entre os ex-presos que compareceram ao evento. Anivaldo Padilha, pai do ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha, chorou demoradamente ao relatar a sua passagem por aquele local em 1970. "Até agora eu tinha evitado voltar aqui", contou. "É a primeira vez. Estou muito emocionado."

O ato desta segunda também teve como objetivo aumentar o movimento de pressão para que o governador Geraldo Alckmin retire a delegacia do local. O edifício já foi tombado, no início deste ano, pelo Departamento do Patrimônio Histórico. Agora, porém, organizações de ex-presos e defensores de direitos humanos querem agora transformá-lo num memorial dos anos da ditadura. "Hoje não é dia de criar atritos com o governo do Estado. Mas acho que o governador já deveria ter atentado para a importância deste local. Várias pessoas do seu governo também passaram por aqui como presos", disse o deputado Adriano Diogo.