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Grupo participa de ato em SP para relembrar 50 anos do golpe

Ampliado às 12h - Roldão Arruda, de O Estado de S. Paulo

31 Março 2014 | 10h 21

Cerca de mil pessoas estão reunidas no pátio do 36º Distrito Policial, antiga sede do DOI-Codi na capital e principal centro de tortura e repressão da ditadura militar

São Paulo - O pátio do 36º Distrito Policial (DP) de São Paulo, na rua Tutoia, no Paraíso, está tomado por cerca de mil manifestantes na manhã desta segunda-feira, 31, que participam do ato público "Ditadura Nunca Mais", organizado pela Comissão Estadual da Verdade Rubens Paiva. O local é o palco de uma das manifestações realizadas na capital para lembrar os 50 anos do golpe que depôs o presidente João Goulart, em 1964.

O DP abrigou nos anos da ditadura a sede do DOI-Codi de São Paulo, um dos mais importantes centros de repressão política e de tortura do País. Segundo dados da comissão, cerca de 8 mil pessoas foram torturadas no local entre 1969 e 1978. Desse total, cerca de 50 presos políticos foram assassinados, entre eles o jornalista Vladimir Herzog .

No início do ato, os organizadores leram um manifesto no qual pedem a revisão da Lei da Anistia, de 1979. "Só assim romperemos a dura herança deixada pela ditadura e que ainda acoberta os violadores de direitos humanos nos dias atuais", diz o texto. A lei perdoou todos os que cometeram crimes políticos durante o regime militar.

Os manifestantes fizeram ainda a leitura de uma lista com nomes de desaparecidos políticos. A cada nome lido, os demais respondiam dizendo "presente".

Os participantes também entoaram o hino da Internacional Socialista em homenagem aos militantes comunistas mortos no local. Cantar o hino, durante a ditadura, era considerada uma afronta ao regime militar. Segundo Ivan Seixas, militante do grupo armado Movimento Revolucionário Tiradentes e preso aos 16 anos, os presos no DOI-Codi costumava assobiar a melodia quando algum companheiro era retirado da cela para ser torturado. "Apanhei muito por assobiar a Internacional. Nós cantamos aqui hoje para mostrar que conquistamos a humanidade e um espaço que já foi de completa desumanidade."

Entre os presentes no evento estava o ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha (PT), provável candidato ao governo de São Paulo, acompanhado do pai, Anivaldo Padilha - preso clandestinamente e torturado no DOI-Codi, em 1970.

Anivaldo Padilha disse que essa é a primeira vez, desde 1970, que ele retorna ao local. "Me sinto muito emocionado. As cenas de tortura estão voltando, mas ao mesmo tempo sinto que é uma vitória. É uma espécie de retomada deste local", afirmou. O pai do ex-ministro foi militante da Ação Popular, o mesmo movimento ao qual pertencia o ex-governador de São Paulo José Serra (PSDB).

Memorial. Desde de setembro do ano passado, a Comissão Municipal da Verdade Vladimir Herzog reivindica a desocupação do DP para transformá-lo no Memorial dos Desaparecidos. Em janeiro, o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat) formalizou o tombamento do prédio.

Com o ato desta segunda, os manifestantes tentam reforçar o pedido pelo andamento do projeto. Em janeiro, a Secretaria de Cultura do Estado informou que o caso está em análise.

Presente no evento, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), manifestou-se favoravelmente à criação do memorial. "Tudo que puder ser feito para manter a memória dos tempos sombrios da ditadura é útil para a sociedade, é educativa. A memória deve ser preservada para que os erros não se repitam", afirmou Haddad.