1. Usuário
Assine o Estadão
assine


Graça Foster sugere que Cerveró poderia ter sido demitido antes

Eduardo Bresciani e Fábio Fabrini - O Estado de S. Paulo

30 Abril 2014 | 22h 06

Presidente da Petrobrás diz que conselho poderia tirar o então diretor do cargo logo após detectar falha em parecer técnico

Brasília - A presidente da Petrobrás, Graça Foster, afirmou nesta quarta-feira, 30, em audiência na Câmara dos Deputados que era responsabilidade do Conselho de Administração da estatal demitir o então diretor de internacional da companhia, Nestor Cerveró, após constatar falhas no parecer apresentado por ele e que levou à compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos. A presidente Dilma Rousseff, então ministra da Casa Civil, estava à frente do colegiado em 2008, quando foi feito o diagnóstico sobre a omissão de cláusulas consideradas importantes.

Em vez da demissão, Cerveró mereceu elogios registrados em ata e uma transferência para a diretoria financeira da BR Distribuidora, principal subsidiária da Petrobrás. Só deixou o posto no mês passado, após o Estado revelar que a presidente Dilma votou pela compra dos primeiros 50% da refinaria, em 2006, o que ela atribui a falha no resumo executivo apresentado pelo ex-diretor ao Conselho de Administração.

"Por que (Cerveró) não foi demitido? (Eu) Não fazia parte do conselho na época. Não posso responder a essa pergunta", disse. "Quem demite e quem aprova diretores da Petrobrás e da BR Distribuidora é o Conselho de Administração, que é o mesmo. Cabe apenas ao conselho. Tem o presidente do Conselho e os conselheiros, cabe a esse presidente do conselho justificar a aprovação ou não de um diretor da nossa companhia", afirmou Graça.

Lava-jato. A presidente da Petrobrás considerou que a Operação Lava Jato da Polícia Federal causa profundo constrangimento à estatal. "A Lava Jato nos constrange profundamente", afirmou. No último dia 17 de março, a Polícia Federal deflagrou operação para desmontar um esquema de lavagem de dinheiro que pode ter alcançado R$ 10 bilhões. Entre os denunciados e já alvo de processos estão o doleiro Alberto Youssef e o engenheiro Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás. Costa é acusado de ser a ligação do doleiro com a estatal. Ele teria, segundo a Polícia Federal, recebido propina para facilitar a vida de Youssef na empresa.

Em quatro horas de depoimento, ela voltou a qualificar a compra como "mau negócio", mas fez acenos ao grupo do ex-presidente da Petrobrás José Sérgio Gabrielli ao dizer que, em 2006, quando obteve a primeira metade da refinaria, ele era "potencialmente bom". Após uma disputa judicial com a Astra, sócia do empreendimento, a estatal teve de comprar os outros 50%, o que elevou o valor de aquisição para US$ 1,24 bilhão.

Graça repetiu argumentos da diretoria anterior justificando o prejuízo de US$ 530 milhões pelas mudanças no mercado de petróleo, a crise financeira internacional e a falta de investimentos para mudar o perfil da refinaria para o processamento de óleo pesado, como o produzido no Brasil. Sustentou, porém, que as cláusulas Put Option e Marlim, apontadas por Dilma como responsáveis pela polêmica, eram importantes, ao contrário das versões de Gabrielli e Cerveró, que as trataram como "não relevantes" ou "inócuas".

Parlamentares governistas afirmaram que o tom conciliador da presidente da Petrobrás em relação ao antecessor é um "ajuste no discurso político" após Gabrielli, em entrevista ao Estado, ter sustentado que Dilma "não pode fugir à responsabilidade" por ter aprovado o negócio. Graça, porém, acabou pondo a presidente em situação delicada ao destacar que caberia ao conselho comandado por Dilma punir o personagem tido como responsável pelo mau negócio.

"Nestor Cerveró virou culpado, mas antes era herói? Na hora em que o assunto veio à tona, a presidente decide demiti-lo. Mas, antes disso, ele foi ser dirigente da Petrobrás Distribuidora", disse o líder do PSDB na Câmara, Antônio Imbassahy (BA).

Graça cutucou os tucanos e disse que a estratégia de investir em refinarias no exterior vem de 1999, no governo tucano de Fernando Henrique Cardoso. Afirmou que o prejuízo de Pasadena poderá ser revertido no futuro, como aconteceu com outros negócios da companhia, mas informou que o ativo não é uma prioridade no momento e só não foi vendido para que a Petrobrás pudesse ter acesso a todas informações sobre o processo de compra.

Graça Foster já havia dado explicações sobre Pasadena, só que no Senado, em 15 de abril.