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Graça admite ‘erros’ na construção de Abreu e Lima, mas defende obra

Ricardo Brito e Eduardo Rodrigues - O Estado de S. Paulo

11 Junho 2014 | 22h 06

Presidente da Petrobrás depõe em CPI mista, em quarta audiência no Congresso após suspeitas recaírem sobre estatal

Andre Dusek/Estadão
Graça Foster falou por mais de seis horas à CPI mista do Congresso nesta quarta-feira

Brasília - Com o ritmo da audiência ditado pelo relator CPI Mista da Petrobrás, o ex-presidente da Câmara Marco Maia (PT-RS), a presidente da estatal, Graça Foster, reconheceu nesta quarta-feira, que pode ter havido erros na montagem financeira da Refinaria Abreu e Lima. Disse, porém, que o processo não foi feito sem “zelo”.

“Não podemos aceitar colocações de que não temos procedimentos e processos a seguir para aprovação de fases de projetos. Podemos ter cometido erros, mas foi um trabalho sério e técnico de quem fez a última refinaria em 1980. Abreu e Lima não foi feita sem zelo, sem cuidado”, afirmou.

O primeiro depoimento colhido pela CPI mista da Petrobrás foi marcado por acusações de blindagem da base aliada. Graça Foster já havia prestado depoimento na CPI da Petrobrás e falou duas vezes em comissões do Congresso. Nos depoimentos, ela sempre procurou poupar a presidente Dilma Rousseff.

Nesta quarta, ela afirmou que “não compactua” com irregularidades investigadas na estatal, mas reconheceu que não sabia de tudo o que se passava na empresa.

A oposição acusou a base aliada de tentar blindar Graça Foster em razão das mais de três horas que o relator da CPI gastou fazendo perguntas. O deputado Fernando Franceschini (SDD-PR) chegou a levar uma pizza para a comissão, chamando o relator de “pizzaiolo da corrupção”. Maia rebateu e disse que faz uma investigação séria.

Nas perguntas da oposição, o depoimento de um ex-gerente da estatal foi usado para fragilizar a versão apresentada pela presidente da empresa, sobre a omissão das cláusulas para que a diretoria executiva da empresa aprovasse a compra em 2006 de metade da refinaria de Pasadena, no Texas (EUA).

Em mais de seis horas de fala, Graça Foster disse que a diretoria executiva da Petrobrás não teve acesso às duas cláusulas do contrato que respaldaram a operação. A diretoria é a instância imediatamente inferior ao Conselho de Administração da Petrobrás, que era presidido por Dilma Rousseff na época da compra e aprovou a compra a aquisição.

“Os registros que nós temos é que essas duas cláusulas não foram debatidas nem na diretoria executiva. Não consta da ata”, afirmou Graça Foster.

A primeira das cláusulas, a Put Option, obrigava a Petrobrás a comprar a outra metade da refinaria em caso de desentendimento com a sócia belga Astra Oil. A cláusula Marlim, por sua vez, garantia lucro mínimo aos belgas mesmo que o negócio não desse lucro. A Petrobrás entrou em desacordo com a sócia e foi obrigada a adquirir a metade remanescente da refinaria. A estatal contabiliza atualmente um prejuízo de US$ 530 milhões com a aquisição de toda Pasadena.

Em nota enviada ao Estado em março, Dilma disse que não fecharia a compra dos primeiros 50% de Pasadena porque se baseou em um resumo que não fazia menção às duas cláusulas. O documento foi preparado pelo ex-diretor da Área Internacional Nestor Cerveró.

Em depoimento à CPI da Petrobrás do Senado no dia 3 de junho, o ex-gerente-executivo da Área Internacional Luis Carlos Moreira da Silva, subordinado em 2006 a Nestor Cerveró, afirmou que foi ele quem defendeu a operação na reunião da diretoria executiva da estatal. Na ocasião, Moreira ressaltou que as cláusulas eram de conhecimento de todos na diretoria e, lembrou, ele foi até questionado pelo então diretor de Produção e Exploração da Petrobrás, Guilherme Estrella.

Falha. Durante o depoimento de Graça Foster, o deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS) divulgou uma análise de cinco paginas feita pelo então gerente jurídico da Área Internacional, Carlos Cesar Borromeu, que citava a existência das duas cláusulas e, segundo o parlamentar, foi levada para discussão na Diretoria Executiva. 

Graça Foster disse que soube da existência do documento, após apuração do comitê de investigação interna da Petrobrás, e admitiu ao parlamentar que houve uma falha porque a análise não foi anexada aos documentos que foram remetidos para a diretoria.