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Política

Dilma Rousseff

Governo teme perder apoio e apressa rito do impeachment

'Já que o processo do impeachment foi recebido indevidamente, não dá para ficar com esse cadáver insepulto', diz o ministro Ricardo Berzoini

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Vera Rosa, Daniel Carvalho e Carla Araújo,
O Estado de S. Paulo

08 Março 2016 | 22h15

Brasília - O agravamento da crise política aumentou a instabilidade da base aliada e levou o Palácio do Planalto a rever sua estratégia, pedindo pressa na votação do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. O ministro da Secretaria de Governo, Ricardo Berzoini, disse que o caso virou um “cadáver insepulto” e fez um apelo para que o Congresso vote logo o assunto.

Sob o argumento de que o País não pode ficar paralisado por causa de uma ação política sem desfecho, Berzoini disse que o governo não fará qualquer manobra para impedir a votação. “ Já que o processo de impeachment foi recebido indevidamente pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha, não dá para ficar com esse cadáver insepulto”, disse Berzoini ao Estado. “Há uma tentativa da oposição de obstruir a pauta da Câmara e do Senado só para discutir impeachment. Não é lícito fazer isso. O Brasil não pode parar.”

Em reunião com deputados que lideram partidos da base na Câmara, o ministro afirmou ontem que, enquanto a crise política não se resolver, o País não vai superar a instabilidade econômica. “Nós não temos medo do impeachment. O governo não tem interesse em procrastinar essa votação no Congresso.”

A mesma avaliação foi feita, pela manhã, no encontro de Dilma com ministros que compõem a coordenação de governo. O diagnóstico do Planalto é que a oposição quer arrastar o impeachment o máximo possível para fazer o governo “sangrar” e, nesse período, angariar o apoio das ruas ao processo de deposição de Dilma. Na domingo, haverá manifestações em todo o País pelo afastamento da presidente.

A nova ofensiva da oposição depende da resposta do Supremo Tribunal Federal ao recurso apresentado pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) sobre o rito do impeachment. O julgamento foi marcado para o dia 16. “O governo, desde o ano passado, tem dito que está pronto para discutir impeachment. Já existe uma decisão mais que clara. Cabe ao presidente (Eduardo Cunha) colocar a comissão para funcionar. Estamos prontos para discutir esta matéria”, afirmou o líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE). 

Na base, porém, há líderes que entendem o encaminhamento como um erro. Temem a interpretação de que o governo jogou a toalha ou que a própria base defenda a saída de Dilma.

Desgaste. Nesta terça, no Congresso, até governistas obstruíram votações e os sinais de desgaste da base começaram a ser emitidos logo cedo. Minutos antes de seguir para o Planalto para a reunião de líderes com Berzoini, o líder do PSD, Rogério Rosso (DF), defendeu novas eleições gerais. “Outro dia escutei: ‘Rosso, e se fizéssemos eleições gerais, não só para presidente, mas para todos os cargos?’. Eu topo. A gente tem que topar tudo que for para consertar e unir o País”, disse o líder do partido de Gilberto Kassab, um dos ministros mais fiéis a Dilma.

No Senado, também há sinais de racha na base. O senador Valdir Raupp (PMDB-RO) disse que o partido não deve acompanhar o governo em todas as votações. Para um interlocutor do vice Michel Temer, a tendência de desembarque do PMDB do governo é “crescente” e, na convenção do partido, no sábado, há chances de ser aprovada moção de independência em relação ao Planalto. Para evitar que o maior aliado lidere a debandada, foram escalados Berzoini e Jaques Wagner (Casa Civil). / COLABORARAM TÂNIA MONTEIRO e JULIA LINDNER

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