Governo de ‘notáveis’

Temer perde uma chance atrás da outra de melhorar a qualidade de seu Ministério

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

05 Janeiro 2018 | 03h00

Entra governo, sai governo, os ministérios são tratados como “redutos” de partidos aliados ao (ou à) presidente da vez. Michel Temer, porém, está exagerando na dose e o melhor exemplo disso é o Ministério do Trabalho, apesar de 13 milhões de desempregados e da reforma trabalhista em implementação.

A nomeação da ministra Cristiane Brasil serve para “empoderar” a deputada do PTB do Rio e para “resgatar” a imagem do pai dela, o presidente do partido, Roberto Jefferson, preso no mensalão. Mas será que é a melhor opção para tocar as questões trabalhistas e negociar com as centrais e entidades sindicais?

Antes mesmo da posse, Cristiane Brasil está às voltas com uma informação ruim para qualquer cidadão, mas péssima para um ministro do Trabalho. Ela foi condenada pela Justiça trabalhista a uma multa de R$ 60 mil por manter um motorista trabalhando para a família das 6 da manhã até tarde da noite – e sem carteira assinada.

A coisa só piora com o suplente de Cristiane, que vai assumir tanto a vaga dela na Câmara quanto um belo foro privilegiado: Nelson Nahim, do PSD, irmão do ex-governador Anthony Garotinho e mais um ilustre do Rio com ficha corrida, enrolado com a polícia e com a Justiça. Seu caso, porém, tem ares particularmente macabros.

O ex-governador Sérgio Cabral sofreu a 20.ª denúncia ontem, por desvios, corrupção, lavagem de dinheiro etc. etc. O próprio Garotinho e sua mulher, a também ex-governadora Rosinha, já passaram dias na cadeia por crimes eleitorais. Eduardo Cunha... Bem, a lista é longa. Mas, no caso de Nahim, a acusação é de outra ordem: exploração sexual de menores.

Ele foi condenado a 12 anos, em regime fechado, como integrante de uma rede que mantinha crianças e adolescentes praticamente em regime de escravidão, trancadas em uma casa e enviadas a hotéis e outros locais para servirem a pedófilos. Por que está livre? Por um habeas corpus, após cumprir quatro meses de cadeia.

Logo, temos que a nomeação para o Trabalho favorece Roberto Jefferson, Cristiane Brasil e Nelson Nahim, além de alimentar a esperança de Temer de aprovar a reforma da Previdência no início deste 2018. E o que menos contou foi o interesse público, a capacitação da nova ministra para o cargo.

Isso, aliás, é só um capítulo da novela. A nomeação do petebista Ronaldo Nogueira já tinha sido polêmica e ele acabou se notabilizando pelo projeto que “relativizava” o conceito de trabalho escravo. Quando ele saiu, sob o pretexto de que vai disputar a reeleição de deputado em outubro, Roberto Jefferson, como presidente do PTB, tratou de apresentar o nome de Pedro Fernandes (MA), que não era apenas inviável, mas uma provocação.

Apesar da versão de que foi o ex-presidente José Sarney quem o vetou, a verdade é que foi o próprio Temer. Como nomear um deputado cujo filho é secretário do governador Flávio Dino, do PCdoB, que afronta Temer mantendo até hoje o retrato de Dilma Rousseff na parede do gabinete?

Ao indicar Fernandes, Jefferson alegou que ele não vai concorrer em outubro e poderia ficar até o fim do governo. Por esse critério, só dois outros deputados do PTB poderiam cobrir o vácuo, Sergio Moraes e Pastor Josué. Mas tudo isso foi só uma jogada de Roberto Jefferson. Os três serviram de bucha de canhão, enquanto ele armava tudo para empurrar a própria filha no Trabalho. Bastava Temer aceitar e Cristiane desistir da reeleição. Fácil.

Temer foi enganado? Não. Ele conhece os personagens, o desemprego e sua baixa popularidade, mas está perdendo, uma a uma, a chance de fazer o que o senador José Serra anunciava entre o impeachment de Dilma e a posse do seu vice: um “governo de notáveis”. Que notáveis!

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