Filme lembra os 30 anos de 'Brasil: Nunca Mais'

Ana Castro e Gabriel Mitani são diretores do documentário Coratio, que conta a história do Brasil nos tempos de ditadura

José Maria Mayrink, O Estado de S.Paulo

04 Outubro 2015 | 02h04

Dois jornalistas resgatam memórias de torturas e da violência policial do tempo da ditadura militar como alerta contra a continuidade dessas práticas vista ainda nos dias de hoje. Ana Castro e Gabriel Mitani são diretores do documentário Coratio, que conta a história de Brasil: Nunca Mais, livro lançado há 30 anos que denunciou os horrores das prisões políticas durante o regime militar (1964-1985).

"Coratio, nome que criamos com base em duas palavras latinas - cor/coração e ratio/razão - mostra o que foi o projeto Brasil: Nunca Mais, quem fez o livro e como é a realidade hoje nos cárceres do País", informa Ana Castro, diretora e produtora do documentário. Os dois diretores trabalharam de graça, tirando às vezes dinheiro do bolso, pois contavam com um orçamento pequeno, de R$ 23 mil, contribuição de 199 pessoas que participaram de um financiamento coletivo.

Para o filme, foram entrevistadas vítimas da repressão, os coordenadores do projeto, Luiz Eduardo Greenhalgh e Paulo Vannuchi, e os redatores do livro, Frei Betto e Ricardo Kotscho, além de Eny Raimundo Moreira, a advogada do Escritório Sobral Pinto, no Rio, que, nos anos 1970, teve a ideia de usar os arquivos dos processos judiciais do Superior Tribunal Militar para revelar os abusos cometidos pela ditadura.

Os ex-presos políticos ouvidos não aparecem no livro Brasil: Nunca Mais, que só citou nomes de mortos e desaparecidos, mas foram entrevistados como testemunhas, pois foram vítimas de torturas e viram companheiros sendo torturados e morrendo na prisão. O cardeal d. Paulo Evaristo Arns, na época arcebispo de São Paulo, aparece em fotos e em vídeos que mostram o papel que ele teve na luta contra o regime militar.

"Não conseguimos falar com ele, porque, pela idade avançada (94 anos) e por causa de seu estado de saúde, o cardeal não dá entrevistas", lamenta Ana. A ação de d. Paulo, em parceria com o pastor presbiteriano Jaime Wright, que morreu em maio de 1999, foi fundamental para o levantamento dos arquivos da Justiça Militar e a publicação do livro.

O Conselho Mundial de Igrejas condicionou o financiamento do projeto ao aval do cardeal de São Paulo e do reverendo presbiteriano, defensores dos direitos humanos, quando a advogada Eny Moreira, então presidente do Comitê Brasileiro pela Anistia, pediu sua ajuda em Genebra, na Suíça. "O advogado e ex-deputado Sigmaringa Seixas emprestou uma sala do escritório dele em Brasília para os advogados copiarem os processos retirados do STM", diz Eny.

O jornalista Ricardo Kotscho e Frei Betto trabalharam, por mais ou menos um ano, sob ordens diretas de d. Paulo e do reverendo Wright. "Clandestinamente, porque ninguém mais, nem mesmo a família, podia saber o que estávamos fazendo", diz Kotscho. A cada 15 dias, mudavam de endereço, em geral um convento religioso. Seus nomes, como nenhum outro da equipe, não aparecem em Brasil: Nunca Mais.

Vítima. A jornalista Rose Nogueira, uma das vítimas entrevistadas, relembra, emocionada, as torturas pelas quais passou. Presa na madrugada de 4 de novembro de 1969, mesmo dia da morte do guerrilheiro Carlos Marighella, quando amamentava o filho de um mês, ficou nas celas do antigo Dops, o antigo Departamento de Ordem Política e Social - onde atuava o delegado Sérgio Paranhos Fleury, um dos policiais mais violentos da repressão -, e do Presídio Tiradentes, até agosto de 1970.

"A geração de hoje, quando tem gente pedindo a volta da ditadura, desconhece o que foi a repressão no regime militar", observa Mitani, de 29 anos.

Para os diretores do documentário, ainda não se pode dizer "nunca mais", porque as práticas de violações de direitos humanos por agentes do Estado continuam, 30 anos após a redemocratização. "Não houve uma reforma institucional nas polícias, e a violência cresceu", diz Ana.

Em São Paulo foram mortas 728 pessoas em ações policiais em 2014. Agentes também são vítimas da violência: 490 foram mortos no mesmo ano.

 

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