'Festival de Política' lota casa noturna em São Paulo

Celebrando a 'política sem gravata', evento da Revista Trip teve debate com Fernando Gabeira e Ronaldo Lemos

Tatiana de Mello Dias, do estadao.com.br,

19 Outubro 2009 | 10h39

As filas eram as mesmas que dobram o quarteirão na rua Augusta, mas não foi para um show de música que o público foi à casa noturna Studio SP no final da tarde de domingo (18). Entre cervejas (pagas) e picolés (distribuídos de graça), 976 pessoas prestigiaram o Festival de Política Trip, uma iniciativa da editora para estimular o debate político entre os jovens.

 

Público lotou o Studio SP para falar de política. Fotos: Paulo Liebert/AE

 

"Eu tinha a sensação de que tinha muita gente desinteressada em política, e ano que vem tem eleições importantíssimas", explicou Fernando Luna, diretor-editoral da Editora Trip. Ali, o deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ) era o principal representante da classe. "Eu estarei em qualquer iniciativa política que não seja convencional. Espero trazer mais gente e novas ideias para o debate", disse Gabeira ao Estado, enquanto ao fundo tocava a música "Filme de Terror", de Sérgio Sampaio.

 

"Estou escolhendo canções que tenham a ver, músicas de protesto", disse o DJ Tatá Aeroplano, responsável pela discotecagem no intervalo do debates. Enquanto o DJ tocava, os microfones ficaram abertos para a participação do público. "Vocês que moram da ponte para cá deveriam atravessar e ver o que acontece pra lá", disse um rapaz, referindo-se à música dos Racionais MCs sobre a vida na periferia.

 

"Eu achei isso aqui uma p... ideia. Fiquei chocada quando eu cheguei lá fora e tinha toda aquela fila, porque às vezes a gente acha que o jovem está totalmente alienado. Não está, o jovem está afim de fazer política", disse a vereadora Mara Gabrilli (PSDB), que subiu ao palco para falar com o público por cinco minutos.

 

O primeiro show da noite ficou por conta do Maquinado, projeto paralelo de Lúcio Maia e Dengue, da Nação Zumbi. "Eu acho que se puder unir duas coisas importantes como política e diversão, é uma grande sacada", disse Maia. A banda tocou parte de seu repertório intercalado com músicas como "Zumbi" (Jorge Ben) e Canto de Ossanha (Baden Powell e Vinícius de Moraes).

 

"Eu acho que tudo é uma coisa só, os músicos selecionaram o repertório para entrar no clima. Nossa ideia não é fazer um showmício", explicou Luna.

 

O debate principal reuniu Gabeira, Ronaldo Lemos, do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV, e Luis Felipe D'Avila, cientista político. Ninguém usava gravata. Na pauta, financiamento público de campanha (Gabeira afirmou que faz isso 'independente do projeto do [Eduardo] Suplicy'), voto distrital, corrupção, ética e o futuro da política.

 

"Sim, é possível fazer política sem corrupção", disse Gabeira. Fernando Luna, que moderou o debate, pediu para que o deputado comentasse o fato de ter repassado à filha uma passagem aérea de sua cota parlamentar."Reconheço meu erro. Eu não sou infalível", disse, para depois revelar que "foi até confortável sair do pedestal de político impecável". "Nós somos um país tropical, nunca vão encontrar santos por aqui", justificou.

 

A plateia, em pé, acompanhava com atenção - uma conversa mais animada era repreendida com um "shh!".

 

Em entrevista ao Estado pouco antes, Gabeira havia comentado sobre o papel da internet nas próximas eleições. "Eu acho que no ano que vem algumas ferramentas estarão mais amadurecidas. Nós ainda vivíamos no tempo do blog, hoje já é tempo do Twitter", disse.

 

Durante o debate, Ronaldo Lemos voltou ao assunto. “No ano que vem, pela primeira vez a internet vai fazer a diferenças nas eleições”, disse, defendendo o aumento do acesso à banda larga. "Hoje não se consegue exercer cidadania sem acesso à rede". O advogado aproveitou para criticar a Lei Azeredo e para falar do marco regulatório civil da internet que está sendo desenvolvido pelo ministério da Justiça com a sua consultoria. "Qual é o limite da privacidade na rede? Cada juiz tem um entendimento", disse.

 

A noite terminou com uma apresentação de fotos históricas da política nacional, que começou com Getúlio Vargas sujando as mãos de petróleo, há cinco décadas, e terminou com o presidente Lula fazendo o mesmo gesto. A mostra foi apresentada por Guilherme Weneck, diretor de redação da revista TRIP, e o fotógrafo João Wainer. No fim, o Instituto coroou o evento tocando seu repertório e releituras - entre elas, "Fight the power", do Public Enemy.

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