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Política

Dilma Rousseff

Fatos mostram que Dilma não joga a toalha

História da presidente, sobretudo na época da Ditadura Militar, indica sua capacidade de enfrentar adversidades

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Luiz Maklouf Carvalho,
O Estado de S. Paulo

13 Março 2016 | 21h33

Nos tempos duros da clandestinidade – que relembrou de passagem, na última sexta-feira, ao afirmar “não ter cara de quem vai renunciar” –, a presidente Dilma Rousseff, então Vanda, ou Estela, abnegada dirigente do grupo comunista Vanguarda Armada Revolucionária Palmares, resistiu até o final. No caso, a prisão, pela polícia política, onde foi submetida à tortura. Resistiu, novamente, mantendo a galhardia possível, falando pouco (ou “mentindo muito”, como já disse), e, em consequência, preservando o máximo que pôde do que ainda restava para o casebre da luta armada acabar de cair. 

Lá se vai quase meio século, é verdade, mas a barra pesada daqueles tempos, com a ditadura no calcanhar, tornava a vida muito mais difícil, e perigosa. É a isso que a presidente se refere quando desdenha notícias off the record, quem sabe palacianas, sobre sua resignação em jogar a toalha. Pode até vir a fazê-lo – só Deus sabe o que lhe vai pela alma, que é mineira –, mas nunca o fez em ocasiões radicalmente muito mais adversas e com risco de morte – resiliência que moldou, para o bem ou para o mal, sua personalidade turra e sem medo de cara feia (nem a dos torturadores, alguns dos quais denunciou com nome e sobrenome). “A pior coisa que tem na tortura é esperar, esperar para apanhar”, já relatou.

A toalha poderia ter sido jogada, uma primeira vez, quando sabia iminente a prisão, com o primeiro marido, Galeno Linhares, ambos militantes de uma organização que fazia ações armadas. Moravam em um apartamento/aparelho, no centro de Belo Horizonte. Quando a polícia chegou, nem sombra do casal, que assim entrava na clandestinidade, migrando para o Rio de Janeiro. A faculdade de Economia foi trocada pela militância, primeiro na organização Comando de Libertação Nacional (Colina), e depois na VAR-Palmares, uma fusão do Colina com a Vanguarda Popular Revolucionária (a VPR, do capitão Carlos Lamarca). Vanda, Patrícia, Luiza ou Estela, era uma militante dedicada e qualificada. Assumiu tarefas arriscadas – como esconder em segurança armas e/ou dinheiro, ou viajar pelo Brasil fazendo proselitismo da organização e das ideias em que acreditava – inclusive a das ações armadas, no plano teórico, da qual depois recuou. 

Que se saiba, ou que ela própria tenha admitido, nunca participou diretamente de uma ação. Mas, como também já contou, fez treinamento militar (precário, é verdade) preparando-se para a possibilidade. Não esteve na linha de frente da maior ação armada da história da guerrilha urbana – o famoso roubo do cofre de Ademar de Barros, pela VAR-Palmares, em 18 de julho de 1969, no Rio de Janeiro – mas participou de todas as etapas de preparação e, no pós-assalto, da trabalhosa logística para arrombar o cofre e para guardar a fortuna surrupiada de US$ 2,4 milhões.

Nenhuma organização tivera tanto dinheiro na história da luta armada – no Brasil e alhures. Mas aí, nem três meses passados, a VAR-Palmares rachou, exalando ira por todos os lados, e o casebre começou a desmoronar. Foi uma segunda oportunidade para Dilma Rousseff jogar a toalha – o cerco se fechava, até internamente –, mas ela escolheu o lado mais difícil, divergente do capitão Lamarca. Atirou-se ainda mais na militância, seja na disputa com foice no escuro do botim – as armas e os milhões – seja em organizar o rescaldo da VAR-Palmares que sobrou. Na mesma canoa estava seu segundo marido, Carlos Araújo, o Max, e, mais jovem que todos, o mineiro Fernando Pimentel, depois ministro e hoje governador de Minas Gerais. Conta muito, na amizade entre a presidente e o governador, a longa e fria madrugada, em um aparelho de Porto Alegre, em que a dirigente Estela tentou convencer o militante Chico que a nova VAR-Palmares era melhor. Perdeu. Pimentel virou Jorge, na refundada VPR, de Lamarca, e até sequestro tentou, com tiroteio e tudo, do cônsul dos Estados Unidos na capital gaúcha.

Uma terceira possibilidade de resignar-se passou selada quinze dias antes de Estela ser presa. Era um outro sequestro, dessa vez de um avião, comandado pelo militante que fora seu primeiro marido, Galeno Linhares. Estela participou da discussão e da preparação da logística – mas nem a organização nem ela própria acharam que devia estar entre os cinco sequestradores que aterrissariam em Cuba, sem maiores problemas, em 31 de dezembro de 69. Estela foi presa em 16 de janeiro de 70.

Manteve a disposição nos quase três anos de cadeia. É tempo suficiente para um “ok, já dei minha contribuição, não quero mais”. Como queria, persignou-se, retemperou as ideias, fez os ajustes e seguiu em frente. Deu no que deu – a presidência da República –, mais por Lula do que por ela. Houve um momento, no último ano do primeiro mandato, em que passou a gostar do jogo, mais por ela do que por ele. Foi um aviso claro de que não abriria mão de tentar a reeleição – nem que ele fosse mais explícito no desejo de já voltar, se achasse que “o projeto estava em crise” (como de resto desconfiava). 

O símbolo dessa virada, até hoje enevoada, foi colocar para escanteio, quando bem quis, o mais bem situado olheiro de Lula, o ministro Gilberto Carvalho. Se comprou essa briga – que continua dando muita dor de cabeça – é difícil que desista espontaneamente da outra, pelo mandato para o qual foi eleita. A presidente é treinada e sambada em luta interna de organizações clandestinas – valha-nos Deus. Já faz tempo, mas é como andar de bicicleta: não dá pra esquecer. 

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