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1964

Exército mantém efetivo no Araguaia

Leonencio Nossa - ENVIADO ESPECIAL

28 Março 2014 | 15h 01

A cidade paraense de Marabá, centro das operações contra a guerrilha do Araguaia nos anos 70, continua com presença militar muito maior do que regiões de fronteira e de narcotráfico

MARABÁ (PA) - Na cidade da Amazônia usada pela ditadura como quartel-general no combate a guerrilheiros de esquerda, ainda há mais homens do Exército nas ruas que professores nas escolas públicas e privadas. Marabá, no sudeste paraense, onde funcionou a Casa Azul, maior centro de tortura do regime militar, nos anos 1970, abriga a principal unidade militar da América do Sul. Um total de 2.071 homens atuam em seis unidades da 23ª Brigada de Infantaria de Selva, criadas para combater a guerrilha do Araguaia, organizada pelo PCdoB. É um número superior aos 1.998 docentes dos ensinos fundamental e médio.

O movimento armado foi exterminado há quatro décadas, mas a cúpula militar mantém praticamente o efetivo da época numa região que não é fronteira nem rota de narcotráfico. Pelas ruas da cidade passam mais soldados e oficiais que, por exemplo, em Tabatinga, no Amazonas, Cáceres, em Mato Grosso, e Ponta Porã, em Mato Grosso do Sul - municípios com problemas de segurança na fronteira. É possível que o número de militares da 23ª Brigada de Marabá, que tem 4.269 homens espalhados por outros municípios, seja quase o dobro do efetivo usado pela ditadura nas três campanhas contra 100 guerrilheiros de 1972 a 1974. Durante as ações contra a guerrilha, o Exército usou cerca de 2.500 homens.

Atualmente, o número de homens do Exército no sudeste paraense representa quase a metade de todo o contingente do Comando Militar do Norte (CMN), que abrange os Estados do Pará, Amapá e Maranhão, o que inclui a fronteira de 700 quilômetros com a Guiana Francesa. O Exército argumenta que o efetivo em Marabá leva em conta a importância estratégica e o crescimento da economia da região e está de acordo com o Plano de Defesa Nacional. "É muito triste ver uma cidade ainda hoje militarizada", diz Eliana Castro, irmã do guerrilheiro Antonio Teodoro de Castro, o Raul, executado em 1974.

Com 24 mil moradores na época da guerrilha, Marabá tem hoje 250 mil. O Exército continua sendo o maior empregador no município, que não conta com escolas técnicas profissionalizantes. O governo do Estado mantém em Marabá 571 professores em escolas do ensino médio, número quatro vezes menor que o de militares nos quartéis.

Estratégia. Na época da ditadura, a Marinha se concentrava no Rio de Janeiro e em Brasília. Essa estratégia permanece a mesma. Dos 66.061 homens da força, 70% estão nas unidades do 1.º Distrito Naval, no Rio. No 2.º Distrito - litoral da Bahia e Sergipe-, há 2.670 marinheiros e no 9.º Distrito - Amazônia -, 2.508. A Aeronáutica foi a única força que reavaliou a distribuição de pessoal no período democrático. Na Amazônia e no Centro-Oeste, a força conta com 18.369 militares, contingente superior a São Paulo (12.276) e próximo do Rio (22.207), Estados onde tem centros de pesquisas.

Em 1974, pelas salas do comando da 23ª Brigada de Infantaria, onde hoje atuam 22 oficiais, passou algemada a ex-estudante de física da UFRJ Áurea Elisa Pereira, uma das 41 pessoas da guerrilha fuziladas. Áurea e o marido, Arildo Valadão, construíram uma escolinha na margem do Araguaia, numa área de selva hoje pertencente à Piçarra, município de 12 mil habitantes. A escolinha ganhou paredes de tijolos há alguns anos, mas o número de professores da rede estadual no município não passa de 16.

AUTOR DE 'MATA!: O MAJOR CURIÓ E AS GUERRILHAS NO ARAGUAIA' (CIA DAS LETRAS)

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