Exército conclui extermínio dos 'defensores' da monarquia

Na visão dos rebeldes caboclos, a monarquia tinha elementos subjetivos e religiosos

Leonencio Nossa e Celso Júnior

11 Fevereiro 2012 | 20h46

Os líderes do movimento do Contestado defendiam uma monarquia que não necessariamente era um regime de governo. Na visão dos rebeldes caboclos, a monarquia tinha elementos subjetivos e religiosos, observam pesquisadores. Mais que monarquistas, eles eram homens e mulheres descontentes com um novo regime, a República, que chegava à região ao mesmo tempo em que uma grande companhia estrangeira tomava suas terras, coronéis aumentavam seus poderes regionais e não era mais possível sobreviver com roças de subsistência.

 

Os depoimentos dos prisioneiros destacam que a "monarquia" cabocla estava ligada à religião. O prisioneiro Innocencio Manoel de Mattos, 43 anos, que prestava serviço de guarda num acampamento de 250 "fanáticos", na Serra dos Pinheirais, liderado pro Inácio de Lima, relatou: "O ideal daquele povo são a restauração da monarchia e a transformação da religião, sendo isto o assunto do dia entre elles, mesmo quando executavam as suas manobras gritando vivas à monarchia e diversos santos, vivando também o nome de João Maria."

 

Um imigrante estrangeiro feito prisioneiro - situação rara - destaca em seu depoimento que os rebeldes do reduto da Colônia Vieira pretendiam brigar até o Rio de Janeiro para instaurar a monarquia. O agricultor Pedro Zalcalugeme, que diz apenas ter nascido na Europa, ressaltou a disposição dos caboclos. "Que querem elles? Dizem que monarchia. Estão convencidos que ela virá. Elles brigarão até o rio de Canoinhas, enquanto no Rio de Janeiro, se revoltarão, obrigando as forças a irem para lá. Por isso elles fazem questão de tomar Canoinhas e Papanduva, pois só quando chegarem nesses dois pontos, repontará a revolução no Rio. Quem os convence de tal? Não sei."

 

Zalgalugeme também comentou o problema da falta de alimentos e remédios. "Como passam e como se alimentam os moradores da Colônia Vieira? Lá há muita doença. Não há dia que eles não venham buscar remédio com Stanislau que já os não possue para o caso das doenças delles. Alguns, com os quaes falei, afirmam que a mortandade lá é medonha, pois, é raro o dia em que não haja mortes, tendo épocas de perderem 7 ou 8 diariamente."

 

Os rebeldes estavam em farrapos. "Relactivamente à roupa - estão quase nus, as ultimas que arranjaram foi de um negociante que mataram em Papanduva, na vez que tomaram esse lugar. Quanto à alimentação, acham-se na miséria, sendo canjica seu único alimento", ressalta. "Desde quando estão faltando recursos para a Colônia Vieira? Faz dois meses, nem tanto, que elles nada recebem, pois quem lhes fornecia tudo era aquele armazém que a estrada de ferro tinha no Timbó e do qual já fallei. Dizem que um tal coronel Fabrício, foi quem atacou o armazém e "esculhambou com elle"."

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