Executivo confirma à CPI do BNDES ter prestado serviços à Odebrecht

Taiguara Rodrigues, amigo do filho de Lula, prestou depoimento de quatro horas à comissão

Igor Gadelha, O Estado de S. Paulo

15 Outubro 2015 | 16h16

Brasília - O empresário Taiguara Rodrigues dos Santos, dono da empresa de engenharia Exergia Brasil, afirmou nesta quinta-feira que sua companhia recebeu entre US$ 1,8 milhão e US$ 2 milhões por serviços prestados à Odebrecht na obra de ampliação e modernização da hidrelétrica de Cambambe, em Angola. Em depoimento à CPI do BNDES na Câmara dos Deputados, o executivo disse que o valor é referente a serviços de sondagem, avaliação da topografia e gerenciamento de obras prestados pela empresa. Segundo ele, todos os contratos foram obtidos por meio de licitações dentro da empreiteira.

Aos deputados do colegiado, Taiguara também confirmou ser amigo do filho do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, mas negou que o ex-presidente ou seu filho tenham exercido tráfico de influência para que sua companhia conseguisse contratos junto à empreiteira. O executivo disse ter contato com Lula, mas não se considerar amigo do petista, embora seu pai, que foi cunhado do ex-presidente, tenha sido "muito amigo" do petista. "Lula foi casado com minha tia, irmã do meu pai", afirmou, negando que isso signifique que ele seja sobrinho do ex-presidente, como noticiado pela imprensa. 

Taiguara foi convocado à CPI do BNDES após reportagem publicada pela revista Veja, em fevereiro deste ano, insinuar que Lula e seu filho teriam exercido influência política para a Exergia Brasil conseguir contratos em Angola. A matéria afirmava que a empresa teria sido contratada pela Odebrecht para trabalhar na ampliação e modernização da hidrelétrica de Cambambe, no país africano. O acordo entre a Exergia e a Odebrecht, segundo a reportagem, teria sido formalizado no mesmo ano em que a empreiteira conseguiu um financiamento no BNDES para realizar um projeto na África. 

Em seu depoimento à CPI nesta quinta-feira, Taiguara afirmou que é amigo de Lulinha, com o qual o empresário confirmou ter feito uma viagem a Cuba. Segundo ele, a viagem teve como objetivo prospectar negócios, mas que nenhum contrato teria sido firmado. Em relação a Angola, ele disse que as oportunidades de trabalho naquele país apareceram "com o passar dos anos". O executivo contou que, em 2007, foi convidado pelo empresário paulista Nivaldo Moreira, da companhia Morelate, para atuar no fornecimento de peças para ônibus e caminhões no país africano juntamente com o empresário português João Germano. 

De acordo com o Taiguara, a Exergia foi aberta em 2009, ele detinha 49% da sociedade, sendo o restante da participação do empresário português. Questionado por integrantes da CPI como o grupo português topou sociedade com ele, sem que ele tenha entrado com qualquer capital inicial, o executivo afirmou que foi escolhido pela sua habilidade como vendedor, uma vez que seu principal papel na companhia seria "vender" a empresa. Ele disse atuar como vendedor desde os 14 anos. Parlamentares de oposição se mostraram irritados com a resposta do empresário, que confirmou ser sócio de outras três empresas, as quais, segundo ele, não atuaram em Angola.

O empresário disse ainda que a Exergia é uma empresa pequena. Segundo ele, de 2011 a 2015, o faturamento da companhia não chegou a R$ 2 milhões por ano. "Infelizmente não sou um grande empresário", disse. Taiguara confirmou que comprou um apartamento duplex com financiamento da Caixa Econômica Federal e um veículo de luxo da marca Land Rover. Ele alegou, contudo, que, desde meados do ano passado, vive em situação econômica difícil, tendo "muitas dívidas". De acordo com o empresário, seu apartamento corre o risco de ir a leilão "A Exergia Brasil está há muito tempo sem contratos", disse.

Em seu depoimento, o executivo também confirmou que Exergia Brasil firmou outros contratos com a Odebrecht, empreiteira envolvida nas investigações da Operação Lava Jato: um deles no valor de US$ 280 mil e outro de US$ 750 mil - este para reformar uma casa em Angola. O empresário negou, contudo, ter fechado contrato de US$ 1 milhão para construir uma fazenda hidropônica no país africano. Segundo ele, o projeto não foi para frente porque ele não recebeu o dinheiro pelo serviço. No depoimento, o executivo disse ainda que não sabia que a obra da hidrelétrica de Cambambe possuía financiamento do BNDES.

Durante sua fala a CPI na Câmara, que durou cerca de 4 horas, Taiguara aceitou a quebra dos sigilos fiscal, telefônico e bancário de sua empresa, solicitada pelo deputado Betinho Gomes (PSDB-PE). O empresário comentou ainda que não recebeu nenhuma notificação ou intimação do Ministério Público no âmbito de investigação a seu respeito. O executivo disse estar sabendo apenas pela imprensa que está sendo investigado pelo MP. "Está me incomodando aqui o menosprezo à minha pessoa o tempo todo", disse.

Mais conteúdo sobre:
CPI do BNDES Taiguara Rodrigues Odebrecht

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.