‘Excesso de estímulo consumiu gorduras importantes’

Entrevista com Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central no governo FHC

Fernando Dantas / SÃO PAULO, O Estado de S.Paulo

31 Dezembro 2010 | 23h00

Ao manter os estímulos à economia mesmo depois que o Brasil já tinha superado a crise global, o governo "consumiu gorduras importantes", na visão de Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central e sócio da Gávea Investimentos. Para ele, Dilma Rousseff assumirá tendo de fazer ajustes.

 

Como o sr. avalia o governo Lula?

A primeira fase, que começou antes da posse, foi de administração da crise de expectativas ancorada na história, no programa e nos discursos do PT. O grande destaque aí foi o bom senso e a clareza do então presidente eleito, e depois de sua equipe, capitaneada pelo Palocci (Antonio Palocci, ex-ministro da Fazenda), e que veio a contar também com o Henrique Meirelles no BC.

 

O que veio a seguir?

Depois que as coisas se acalmaram, o governo pôde se concentrar numa agenda bastante completa de reformas, com resultados excelentes, e que pareciam caminhar até para um reforço relevante no lado fiscal, com visão de longo prazo. Nessa fase também se decidiu aprofundar os programas sociais, contribuindo para a queda da pobreza e da desigualdade.

 

Qual sua avaliação da fase pós-Palocci?

Houve sem dúvida uma mudança de ênfase, que saiu do trabalho estrutural para o objetivo de capitalizar em cima do que já tinha sido feito, e também das condições excepcionais que prevaleciam na economia global. Aproveitou-se isso para aumentar a demanda doméstica e procurar crescer, como de fato aconteceu. Essa fase foi interrompida pela crise global, que o País pôde administrar bem por ter se comportado bem nos anos anteriores à turbulência, inclusive antes de Lula.

 

E no período mais recente?

Superada a fase mais aguda da crise global, o governo continuou com uma política muito expansionista, que só fazia sentido enquanto o País estava em recessão. Isso consumiu gorduras importantes. O Brasil hoje caminha para o governo da presidente Dilma Rousseff com folga nas reservas internacionais, mas com menos folga em outras áreas. Houve um crescimento muito acelerado do crédito, tanto público quanto privado, nesse período. Eu penso que não dá para continuar a crescer nesse ritmo. Além disso, passamos de um superávit na conta corrente de 2% do PIB para um déficit que caminha para 3% em 2011. E há também, desde o governo anterior, o aumento dos gastos e da arrecadação acima do PIB.

 

Quais as perspectivas para o início do novo governo?

O consumo das gorduras nos deixa numa situação em que, com o País crescendo 3,5% na média dos últimos dois anos, já enfrentamos uma inflação próxima de 6%, e sem ter a folga de balanço de pagamentos do passado – mesmo levando em conta o excelente comportamento dos preços das exportações e dos termos de troca. O governo se inicia com a necessidade de fazer algum ajuste, tanto fiscal quanto no crédito.

 

Como o sr. vê a situação do investimento no Brasil?

Para mim, é uma surpresa que a taxa de investimento do País continue tão baixa, não passando de 20% do PIB em nenhum momento do governo Lula. Em países que viveram uma importante redução de risco político, como o Brasil depois de Lula, é normal que a taxa de investimentos cresça muito, e cresça rápido, com saltos de até 5 pontos porcentuais do PIB.

 

Por que no Brasil foi diferente?

A meu ver, essa frustração na taxa de investimentos, em que pese todo o esforço do BNDES, que fez uma expansão colossal do seu balanço, tem a ver com questões de natureza ideológica – um governo que não quis aprimorar o modelo de regulação. Espero que a presidente Dilma faça avanços nessa questão. E há também a execução, sobre a qual tenho uma expectativa positiva, já que a presidente eleita sempre deu muita ênfase a esse ponto. A meritocracia entrou no primeiro discurso dela, logo depois de eleita. Menos aparelhamento e mais meritocracia – isso pode ser muito importante.

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