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Ex-presos estão céticos com apuração do Exército

ROLDÃO ARRUDA - Agência Estado

02 Abril 2014 | 20h 41

Ex-presos políticos e familiares de mortos e desaparecidos receberam com ceticismo a informação de que os comandantes das Forças Armadas abriram sindicâncias para apurar violações de direitos humanos em centros militares durante a ditadura.

Na avaliação do jornalista Alipio Freire, ex-preso político e militante na área de direitos humanos, qualquer sindicância conduzida exclusivamente por militares corre o risco de ter seus resultados questionados. "Não conheço os comandantes militares de hoje. Não sei o que pensam do que houve no passado. Mas sei que essas sindicâncias deveriam ser feitas por comissões mistas, com a presença de representantes da sociedade civil, do governo e das Forças Armadas", afirma. "Isso evitaria que os seus resultados fossem postos em dúvida e questionados."

A presidente do Grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro, professora Victoria Grabois, é mais cética que o jornalista. "Tenho muitas dúvidas sobre essa informação. Em primeiro lugar, acho impossível eles darem respostas para uma questão desta amplitude num prazo tão curto, de trinta dias. A menos que tenham tudo organizado em arquivos", diz a professora. "No caso de responderem, existem duas hipóteses. Podem dizer que não houve nada lá dentro das instalações militares e que não existem documentos da época. A segunda hipótese é reconhecer alguns dos casos de pessoas mais conhecidas, como os do jornalista Vladimir Herzog e o do deputado Rubens Paiva. Admitiriam as mortes e apontariam alguns nomes de responsáveis. Seriam nomes de pessoas que já estão expostas, que já foram reconhecidas por suas vítimas e até enfrentam processos movidos pelo Ministério Público Federal."

Victoria, cujo pai figura na lista dos mortos e desaparecidos na Guerrilha do Araguaia, citou como exemplo de militares que podem ser citados nas sindicâncias das Forças Armadas os coronéis reformados Paulo Malhães, que relatou à Comissão Nacional da Verdade crimes que teriam sido cometidos por militares no Rio, e Carlos Alberto Brilhante Ustra, apontado por vários ex-presos políticos como responsável por torturas no DOI-CODI de São Paulo.

O ex-preso político Ivan Seixas, da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos de São Paulo, não acredita que as Forças Armadas estejam mesmo dispostas a esclarecer as denúncias sobre violações de direitos humanos em suas instalações nos anos da ditadura. "Espero estar enganado. Mas tenho quase certeza de que as Forças Armadas vão desconversar. Podem, no máximo, citar os lugares oficiais reconhecidos como centros de tortura, como as sedes do DOI-CODI no Rio e em São Paulo. Não vão nomear, porém, de maneira nenhuma, lugares que eram mantidos na clandestinidade, como a Casa da Morte, em Petrópolis."