EUA ainda estão aprendendo a lidar com a AL, diz FHC

O presidente Fernando Henrique Cardoso, em entrevista ao jornal Financial Times, disse que o governo de George W. Bush "ainda está num estágio de aprendizado em termos de como lidar com a América Latina". O presidente, no entanto, minimizou as tensões comerciais entre o Brasil e os Estados Unidos. Segundo ele, "não existe uma confronto real" entre os dois países. FHC afirmou também que tem dúvidas sobre o tom mais moderado adotado pelo Partido Trabalhadores (PT). "Será que essa posição é apenas para ganhar a eleição ou isso sinaliza realmente uma mudança na maneira que eles encaram o mundo? Se for a primeira hipótese, o eleitorado não vai acreditar." "Nada perturba a serenidade de FHC" O FT observou que o presidente brasileiro enfrenta atualmente enormes desafios. A coalizão governamental foi rompida e os candidatos da oposição de esquerda estão ganhando terreno nas pesquisas de opinião para as eleições de outubro. Além disso, vários países vizinhos do Brasil estão enfrentando sérias crises. "Mas nada perturba a serenidade do Palácio da Alvorada, residência de FHC nos últimos sete anos", disse o FT. "Uma brisa gentil atravessa os corredores do edifício e Mr. Cardoso emerge rejuvenescido após a sua natação matinal na piscina olímpica do Palácio." "Desde que eu assumi houve apenas dois anos nos quais não ocorreram crises", disse o presidente. O jornal salientou que desde a sua eleição, em 1994, FHC construiu sua reputação derrotando a inflação crônica e estabelecendo a estabilidade macroeconômica. Mas o seu governo tem sido afetado por dificuldades que ameaçam manchar seu histórico de "um dos presidentes brasileiros mais populares dos tempos modernos". O crescimento econômico tem sido menor do que a taxa necessária para lidar com uma série de problemas sociais. "Ao longo dos últimos meses, a crise na Argentina fez com que muitos brasileiros passassem a questionar as reformas pró-mercado", dissse o jornal. Alguns analistas suspeitam que o Partido de Trabalhadores tem um chance de ganhar as eleições "e reverter as políticas recentes". Além disso, o golpe militar na Venezuela pode ter sido revertido, mas "para muitos ele apenas ressalta a fragilidade da democracia na região". Mas FHC, segundo o jornal, não aceita esses argumentos. O presidente diz que a reação ao golpe venezuelano ressaltou a solidez do comprometimento da região com a democracia e com as regras constitucionais. FHC disse que América Latina superou a era de golpes de estado e que o estabelecimeto na região de "um sistema de liberdades públicas e privadas "foi uma das mais importantes transformações da última década. "Não há confronto entre o Brasil e os EUA" Essas posições de FHC, segundo o FT, ajudam a explicar recentes discordâncias com os Estados Unidos, que na semana passada rapidamente saudaram o governo interino que substituiu Chavez. FHC minimizou as tensões comercais e disse "que não há um confronto real entre o Brasil e os Estados Unidos". Mas o presidente, segundo o FT, critica diplomaticamente a administração Bush, que segundo ele, "ainda está num estágio de aprendizado em termos de como lidar com a América Latina". O jornal afirma que FHC é também um defensor da globalização. Segundo o presidente, os três países mais importantes da região - México, Chile e Brasil - obtiveram benefícios importantes principalmente por dois motivos: "o desenvolvimento de novos laços com a economia internacional e o seu gerenciamento exitoso dos choques externos". "Não estamos sob ordens do exterior" Além disso, segundo FHC, os governos que obtiveram sucesso aprenderam a administrar as pressões externas e atrair o apoio da sociedade para algumas medidas impopulares, como cortes nos gastos ou elevação dos impostos, "Não faz sentido dizer que estamos sob as ordens do exterior", disse FHC. Segundo o jornal, o presidente acredita que a política envolve um elemento pedagógico. "Quando nós tivemos a nossa batalha contra a inflação, dissemos que explicaríamos passo a passo o que iria acontecer", disse o presidente. Esse método foi aplicado novamente no ano passado, durante a crise energética. "Você tem de ter a força moral de dizer a verdade", disse FHC. "Neoliberalismo nunca teve chance aqui" Segundo o FT, o presidente afirmou que uma dos motivos do aprofundamento da crise argentina foi a adoção de reformas econômicas liberais radicais no país no início da década de 90. Enquanto a Argentina vendeu praticamente todas as suas estatais, o Brasil deixou bancos importantes e a sua empresa petrolífera sob o controle do Estado. "Nunca houve uma chance do neoliberalismo aqui. Esse é um país muito pobre e o Estado terá sempre um importante papel na diminuição das diferenças sociais", disse FHC. "Nós liberalizamos mas não promovemos uma varredura do que existia antes. No Brasil, o gasto público, na verdade, aumentou como porcentagem da produção econômica". Eleições Segundo o jornal, o presidente acredita que as mudanças recentes no Brasil alteraram o terreno para as disputas políticas domésticas. Isso alicerça a sua perspecticva confiante para as eleições de outubro. O jornal observou que a modernização do setor público com a introdução da transparência nas contas públicas e o desenvolvimento de um Poder Judiciário mais independente diminuiram o poder das elites rurais. Isso reduziu a influência de partidos de direita, como o PFL. Ao mesmo tempo, segundo o FT, a popularidade da inflação baixa e a crescente sofisticaçào dos eleitores brasileiros irá criar dificuldades para que um governo do Partido dos Trabalhadores dê uma guinada para a esquerda. O jornal salientou que o PT moveu a sua política rumo ao centro para atrair apoio. ?O eleitorado não vai acreditar? Mas, segundo o jornal, FHC não parece convencido com a mudança do PT. "Será que essa posição é apenas para ganhar a eleição ou isso sinaliza realmente uma mudança na maneira que eles encaram o mundo? Se for a primeira hipótese, o eleitorado não vai acreditar."

Agencia Estado,

19 Abril 2002 | 09h21

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