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Análise: Esforço do governo em se salvar esbarra em divulgação de áudio de Dilma e Lula

A possibilidade de Lula ser nomeado ministro começou a ganhar força após a sua condução coercitiva e foi adiante entre o final da semana passada e o início desta após a controversa operação desencadeada pelo Ministério Público de São Paulo.

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Marco Antonio Carvalho Teixeira*

16 Março 2016 | 21h28

Apenas a extensão das manifestações contrárias ao governo seria um obstáculo à decisão de Lula de aceitar o cargo. Mas, apesar do gigantismo das manifestações em São Paulo e da repercussão da delação de Delcídio Amaral, que atingiu tanto o governo como parte da oposição, Lula aceitou o convite para ser ministro - mesmo sabendo que tal gesto implicaria no aumento dos protestos de rua.

A justificativa para a nomeação de Lula trazia consigo duas verdades. A primeira é que ele passou a se beneficiar do foro privilegiado. A mudança, se não trava as investigações da Operação Lava Jato, pelo menos retira a apuração das investigações de Curitiba e do juiz Sérgio Moro. Para o governo, significa, no mínimo, um ganho de tempo e um alivio na pressão.

A outra é que ao governo não restava outra aposta. Ao falhar em todas as suas tentativas de organizar a articulação política para evitar o impeachment, Dilma acabou apelando por um caminho que apresentava duas possibilidades limites: a de salvação do governo ou a sua inviabilização definitiva.

Entretanto, o esforço do governo em se salvar parece não ter resistido a um fato novo vindo da Operação Lava Jato: a revelação pela Polícia Federal de conversa entre e Lula e Dilma obtida por meio de grampo telefônico. Na gravação, a presidente combinava o envio de um termo de posse como ministro para que Lula supostamente ficasse livre de ser preso caso houvesse a decretação de sua prisão.

O debate em torno da nomeação de Lula sempre trouxe argumentos muito sólidos acerca dos riscos que isso representaria para ele e ao próprio governo.

Entretanto, o governo optou por nomeá-lo, talvez animado pelas vaias a Alckmin e Aécio no protesto e pelo fato da delação de Delcídio ter alcançado Temer e Aécio.

Agora é esperar de um lado as reações dos movimentos pró-impeachment, que já começam a fazer manifestações de grandes proporções em São Paulo e Brasília, e se Lula e Dilma vão seguir adiante com o plano de salvação do governo.

Uma discussão que será inescapável refere-se à utilização dos grampos telefônicos pela Lava Jato nesse contexto. A controvérsia vai frequentar mesas jurídicas e, certamente, vai envolver o Supremo Tribunal Federal (STF). O cenário não permite prognóstico seguro, mas deixa um profundo mal-estar acerca dos rumos da nossa democracia.

*É professor de Ciência Política na FGV-SP

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